octassílabos

Intervenção (1.1)

No espaço vazio disperso
Nas trevas largada esquecida
Mais uma estrela do universo
Mais um astro que espalha vida

Por trás de uma massa de terra
Surge uma imensa serpente
A pobre estrela então berra
À água que vem da sua frente

A chuva cada vez mais perto
Parece que será o fim
A estrela já teme o fim certo

Mas um brilho belo se fez
- Um nascer do Sol no deserto -
E a chuva não vence essa vez

-- Cárlisson Galdino

Special: 

Depressão

Angelicalmente sozinho
Se lá fora chove ou faz sol
Ele se pergunta: e daí?

Tão estranhamente tristonho
Calmamente claro ou escuro
Cercado de cores e sons

Pateticamente irritado
Deitado no chão agradável
Nem tão frio, nem tão gelado

Demoniacamente insano
A televisão vai ao chão
E todos os móveis se movem

Inumanamente furioso
Começa a socar a parede
Blasfema e pragueja em silêncio

Monarquicamente sozinho
Agradece a vida agradável
Co'a arma sob o travesseiro

-- Cárlisson Galdino

Gênero: 

Depois de Chegar

Um dia sonhar com o lugarLágrima Lunar
Distante de tudo no mundo
E ao se passar mais um segundo
Perceber que já chegou lá

Saber que todos só desejam
Desde que se possa lembrar
Estar hoje no seu lugar
Que não cansam por mais que vejam

Pois longe só podem enxergar
Pensam que é o lugar melhor
Esse onde você está

E hoje ao olhar ao redor
O que cê faria ao notar
Que está e vai continuar só?

-- Cárlisson Galdino

Special: 

O Espaço para quem vê

De noite no céu da cidadeLágrima Lunar
Do campo, se vê ainda mais
Pessoas contemplam a imagem
Da dança dos seres astrais

De noite é que se pode ver
Lá na escuridão do infinito
Com olhos, desde o entardecer
O Espaço imenso e bonito

A visão é nosso sentido
É ela que nos abre a porta
De perceber todo o Universo

Os seres no cosmo dispersos
De outro sentido, outra norma
Como é que percebem tudo isso?

-- Cárlisson Galdino

Special: 

Os Índios e o Monstro do Espaço

Os Índios e o Monstro do Espaço

Os índios olhavam o céu
O céu sempre esteve por lá
Mas a noite trouxe ao lugar
Espanto que ninguém sonhou
Brilhando à luz do luar
Viram um navio baixar
Na floresta o barco atracou

Peri, corajoso, saltou
Correu, galopou para o "cais"
Correu o coração ainda mais
O barco era mesmo tamanho
Junto a força dos ancestrais
Correu com seu povo atrás
O barco tinha um brilho estranho

"Que barco gigante! Medonho!"
Peri via o barco dormir
Logo que chegaram ali
O suor corria da testa
Juntou seus irmãos o Peri
"Como veio o barco até aqui?
Do céu no meio da floresta?"

E o barco mostrou que não presta
Barulho calou seus ouvidos
Pancadas, fumaça, rugidos
"E agora o que será de nós?!"
Os índios olhavam aturdidos
Desacreditando os sentidos:
O barco era um monstro feroz

E o barco gritou logo após
A forma não era de barco
A ilusão passou, viram o casco
De uma tartaruga de aço
E Peri se sentiu tão fraco
Diante do barco - que barco? -
Diante do monstro do espaço

Num giro de pata, um pedaço
Da floresta foi pelos ares
Os índios rolavam aos pares
Fugindo dos golpes da fera
"São fortes as bestas lunares"
Logo não houve mais lugares
Protegidos dessa quimera

Depois do cansaço a espera
Do golpe que finda essa vida
Os índios viram em despedida
Com dor e tristeza no olhar
A fera ainda enlouquecida
Olhando com a pata erguida
Foi quando ele quis chegar

Chegando de qualquer lugar
Disparou com o canhão do braço
Bolas de luz no ser do espaço
Era um ser de aço também
Tiros deixam o monstro em pedaços
E o menino azul dá um passo
E diz se chamar Megaman

E a criança volta pro além
E a tribo respira em paz
Mas essa noite foi demais
Louca demais pra um ser humano
A noite em que seres fatais
Corrompem as regras normais
Com aço animado profano!

Pois viram debaixo do pano
Que o mundo é muito maior
Como podem dormir sem dor?
Como será a noite que vem?
Essa noite um monstro chegou
Na noite que um robô salvou
Quem não esperava ninguém

-- Cárlisson Galdino

Special: 

Só as Estrelas

Sentado em uma crateraLágrima Lunar
A atirar pedras ao espaço
Brincando de fazer cometas
Apenas pra passar o tempo

Sentindo tão gelado solo
Pisando a areia branca
Mas não aquela de Caetano
É pior que qualquer exílio

Um celular, modem ou fósfero
Nada disso me serviria
Pois nada iria funcionar

Meu único consolo é que
Daqui vejo estrelas brilhando
No céu qual brilharam na Terra

-- Cárlisson Galdino

Special: 

Na Lua

Uma vida pede perdãoLágrima Lunar
Das estrelas da escuridão
Por um crime não cometido
Perdão por não ter conseguido

E se ergue a olhar as estrelas
E as aquarelas escondidas
Entre a imensidão congelante
Como ele vazia nesse instante

Não há ar pra por nos pulmões
Não há o que o faça viver
Nem cores nem há quem queria

Só treva e luz todo o dia
Por décadas na Lua vive
Chora por não poder viver

-- Cárlisson Galdino

Special: 

Explorador Espacial

Seguindo seu próprio caminhoLágrima Lunar
Sua própria jornada sozinho
No tão negro e gélido espaço
Ocultando sempre seus passos

Viajante que sonhou deixar
Pra trás seu passado e partir
Em busca do brilho estelar
Em busca de seus próprios sonhos

Sua vida foi tomada em busca
Desse sonho imerso em nanquim
Sua vida foi-se de tão brusca

Quando um certo dia tem fim
Encontra a estrela que o ofusca
E finda tão insano sonho

-- Cárlisson Galdino

Special: 

O Castelo do Rei Falcão

No alto daquela montanha
Havia um lindo castelo
Lugar de coisas impossíveis
E lar de um povo tão singelo
Jardim de eterna primavera
De paz e tudo o que há de belo

No alto daquela montanha
Moravam o Rei e a Rainha
Tão jovens e bem humorados
E tudo que essa terra tinha
Por esses dois, justos e alegres
Era bom, só ventura vinha

No salão daquele castelo
A festa estava acontecendo
Quando chegou uma criada
Buscando a rainha querendo
Anunciar a novidade
E ao vê-la foi logo dizendo

Rainha, trago uma notícia
Que tão feliz-feliz me fez
E vai animar todo mundo
Olha esse papel, desse mês!
Veio lá do laboratório
Parabéns pela gravidez!
 
A rainha não se conteve
Logo se danou a chorar
Pois era esse um sonho antigo
O que faltava no seu lar
Há tanto esperando por isso
Por fim ia realizar

O Rei feliz ergueu a taça
E disse a todos presentes
Hoje é um dia especial
É muita alegria pra gente
Vamos brindar a essa criança
Que minha rainha traz no ventre

E toda a noite foi feliz
Como sempre, com muita paz
Com essa bela novidade
Na doçura que a noite traz
Dormiram e sonharam muito
Que logo eles seriam pais

Mas ninguém naquele castelo
Nem de longe desconfiou
De um homem frio e traiçoeiro
Que nem sorriu e nem chorou
Pois esse sonho destruía
Seu sonho de ser imperador

E logo amanheceu o dia
E esse homem não dormiu
Pensando em um plano perverso
Aquela criatura vil
Para derrubar o casal
Que era sempre tão gentil

Pior que aquele sujeito
Não pensou mais nenhum segundo
Saiu porque ele já sabia
Que naquele vale profundo
Vivia um monstro estranho
Dos mais perigosos do mundo

Descendo nas frestas da noite
Movido pela ambição forte
Pela cobiça sem medida
Para mudar a própria sorte
Chegou naquela terra escura
Que exalava o cheiro da morte

Gritando, ele falou assim
Ó monstro da sombra Graní
Eu vim do alto da montanha
E sei que você está aí
Te dou pedaço da minha alma
Pois tenho um favor a pedir

E num grito que estremeceu
O homem, uma voz ligeira
E grave como um trombone
Lhe disse: não fale besteira
Não faço acordo com mortal
Que não seja de alma inteira

O homem suspirou bem fundo
E com a voz quase sumida
Falou: eu quero muito isso
Se você quer minha alma e vida
Pode levar nesse acordo
Mas quero um tempo dessa vida

A voz galopou novamente
Dando coices no seu ouvido
E disse: pois então tá bem
Vamos falar do seu pedido
E eu digo o que posso fazer
E os anos que terás vivido

Aquele homem tão cruel
Com aquela alma penada
Fazia um acordo sombrio.
Na cama pouco iluminada
Dormiam o Rei e a Rainha
No castelo sem saber nada

Num ritual do mais sinistro
O homem pegou um falcão
Prendeu numa jaula de vidro
Com velas, óleo e maldição
Entre espelhos e sangue humano
Escondeu tudo no porão

E o tempo passou no castelo
E tudo parecia bem
A rainha sentindo dores
Bem mais do que as gestantes têm
E não saia mais da cama
E todos sofriam também

Ao completarem oito meses
A Rainha com dores fortes
Gritava clamando na cama
Os gritos de quem vê a Morte
A cama se banhou de sangue
No seu ventre se via o corte

Enquanto a Rainha morria
Nascia, para grande espanto
Diante do Rei e criados
Enrolado num rubro manto
Um monstro infantil horroroso
Jamais visto em um outro canto

A criança não tinha mãos
Os braços pareciam asas
Os seus joelhos distorcidos
E pés terminando com garras
Seus olhos redondos, gigantes
E negros como a madrugada

Cabeça clara e careca
Como cabeça de bebê
O choro que ele fazia
Fez todo mundo estremecer
No lugar de boca, ele tinha
Um bico: mas que estranho ser!

O Rei em pouco enlouqueceu
Mandaram o bebê embora
Por medo do pequeno monstro
Simplesmente jogaram fora
E aquele homem tão malvado
Virou o rei naquela hora

O tempo passou no castelo
No alto daquela montanha
O novo rei era um tirano
Que na dor dos outros se banha
E o povo não tinha alegria
Sofria uma crise tamanha!

Todo mundo passava fome
Era comum haver motim
Mas quando havia, eram pegos
E mortos, era sempre assim
Miséria que não acabava
Impostos que não tinham fim

Vivendo nessa triste vida
Sem nem saber o que é viver
Quem é que pode condenar
Alguém que rouba pra comer
Que nem adolescente é
E criança cansou de ser?

Era uma menina bem nova
Já em roubos e falcatruas
Maltrapilha, sem nenhum trato
Como uma menina de rua
Ninguém se importava com ela
Seus pais são cada um na sua

Um dia aquela tal menina
Por inocência e precisão
Terminou roubando galinha
Do castelo do Rei e então
Passou ela a ser procurada
Pelos soldados da prisão

Seu pai, sabendo do perigo
Que a filha agora já corria
Teve medo que ela morresse
Pois embora não parecia
Trazia o coração de um pai
Que com o risco se afligia

E disse: filha, agora basta
Olha onde você se meteu
Não faz sentido a tal da morte
Te levar primeiro que eu
Você sempre viveu bem solta
E a se virar sei que aprendeu

O rei está com muita raiva
Não sei do que ele é capaz
Por isso pra que você viva
Só uma solução se faz
Você fuja para a floresta
E nunca mais olhe pra trás

Os dois se abraçaram tanto
E se banharam em choradeira
Ela viu no seu pai carinho
Que nunca antes percebera
Entendeu que para viver
Era mesmo a única maneira

E assim ela juntou um pouco
De tudo o que ela podia
Levar, aí esperou atenta
Na hora que a noite caia
Correu do castelo à floresta
Jurando retornar um dia

E na selva ela aprendeu
A viver como os animais
A fugir das garras da fome
E caçar como o lobo faz
Distante daquele castelo
E tudo de mal que ele traz

Correndo um dia na floresta
Ainda era muito cedo
Ela terminou se perdendo
Num labirinto de arvoredo
E sem ter mais saída viu
A cara mais firme do Medo

Em sua mão só uma faca
Feita co'uma pedra lascada
Na sua frente via um monstro
Uma gigante águia penada
Parecia querer ser gente
De medo ela ficou parada

A vida passou nos seus olhos
Como uma retrospectiva
Enfim ela criou coragem
E para continuar viva
Segurou a faca com força
Mas ouviu uma voz altiva

Não faça isso, pobre criança
Um velho chegava ao local
E falou: não mate esse ser
Como se fosse um animal
Ele tem uma alma humana
E não quer fazer nenhum mal

Ainda sem perder o medo
Sem saber se ia confiar
No velho, aquela menina
Andou de lado devagar
Sem tirar os olhos do monstro
Que ficou no mesmo lugar

E disse ainda: Ó criança
Não seja uma menina fria
E ela analisando o monstro
Com olhos atentos o via
E ao fitar por fim os seus olhos
Notou a dor que ele trazia

Nem passou tanto tempo assim
E logo ela fez amizade
Com esse pássaro estranho
Tinham quase que a mesma idade
E por dentro, ela viu que os dois
Se pareciam de verdade

O monstro não falava nada
Mas os dois sempre se entendiam
Ele voando nas alturas
E ela nas plantas, e assim iam
Vivendo os anos sem saber
Que a Morte e a Dor logo viriam

Os anos foram se seguindo
O velho cuidava dos dois
Os dois com quase dezessete
Juntos, como feijão e arroz
Um dia, o monstro estando fora
O velho a chamou e depois

Falou: minha cara criança
Sinto que já me falta o ar
A vida é mesmo muito boa
Mas um dia tem que acabar
E antes que eu vá embora
Preciso uma coisa falar

E contou que ele era o Rei
De outros tempos tão felizes
Da morte da linda Rainha
Da criança e das cicatrizes
Que isso deixou no castelo
Foi quando começaram as crises

E como veio o novo rei
Sem que se abalasse por nada
E ele próprio, tido louco
Já tinha uma cova cavada
E ele fugiu pra floresta
Pra criar a alma condenada

O monstro, o seu próprio filho
E ela disse: Há algo errado
Esse novo rei que chegou
Vivia sempre lado a lado
Com o Rei e com a tragédia
Foi o único beneficiado

E o velho franziu sua testa
E disse: então você pensa
Que ele tem culpa nessa história
Da minha dor e decadência?
Pode até ser, mas isso hoje
Já não faz menor diferença...

Ao final da mesma semana
A tristeza anunciada
Bateu naquela porta ansiosa
Sem querer saber de mais nada
Levando o velho, deixou os dois
Sozinhos em sua jornada

Não sabiam o que fazer
Mais uma semana de luto
E o tempo que ia passando
Aquela moça sem estudo
Pensava naquela história
E bolou um plano astuto

Chamou o monstro numa noite
E disse: Nós faremos isto
Me leve naquele castelo
Discretamente sem ser visto
Que eu vou resolver essa história
De qualquer jeito, eu não desisto

E foi assim que eles fizeram
Acharam onde o rei dormia
Por ali ela se escondeu
E lá ficou por todo o dia
E tudo o que o rei lamentava
Bem escondida ela ouvia

E ele falava do tapete
Da cor que não tava legal
Falava de matar pessoas
De aumento do imposto real
E falava da solidão
Mas nada do monstro afinal

De noite ela voltou pra casa
Que tarefa mais cansativa!
Frustrada por não ter ouvido
A desejada narrativa
Mas teve logo uma ideia
Para uma nova tentativa

E disse: Já sei o que houve
Não adianta eu estar junto
Não posso ficar toda a vida
Com risco de virar defunto
Eu tenho que dar o meu jeito
De fazer ele ir nesse assunto

Por isso, amigo de asas
De dia cace um falcão
Iremos amanhã de novo
Levando essa ave na mão
E a soltaremos no castelo
Pra atiçar a Recordação

E foi que na noite seguinte
Partiram eles novamente
Para fazer tudo de novo
Mas só um pouco diferente
O falcão solto no castelo
Deu susto em todos de repente

O dia passou e o rei
Não falou nada de importante
A jovem retornou com raiva
E disse ao monstro: um instante!
Se um falcão não deu resultado
Agora vou ser ignorante

Na outra noite eles chegaram
E foram espalhar ligeiro
A carga desse novo plano
Bem mais gritante que o primeiro
Soltar os dezesseis falcões
Nas salas do castelo inteiro

E dessa vez não foi em vão
Todo mundo estava assustado
Falavam da tal maldição
Cochichando por todo lado
E ela por lá, sem ser notada
Colhia esse resultado

O rei sequer abriu a boca
Banhado de preocupação
Andou bem rápido dali
Correu direto pro porão
A jovem não viu o que houve
Não arriscou ir junto não

Mas à noite ela aproveitou
E antes de vir seu amigo
Voando lhe levar de volta
Ela desceu até o abrigo
Do porão que o rei tinha visto
Sem temer mais nenhum perigo

E ao chegar lá, se espantou
Ao ver a jaula sobre o chão
Não se via o que tinha dentro
Mas tinha som de assombração
E ela seguiu em silêncio
Como gata na escuridão

Pela brecha viu que lá dentro
Um pássaro estava preso
E ela abriu a jaula e viu
O olhar do falcão aceso
Ele saiu voando louco
E, apesar de tudo, ileso

O espelho tinha algo sinistro
Como se ali se visse um vulto
De alguém: mulher ou um menino
E ela quebrou num golpe bruto
O espelho, que era a prisão
Criada lá no antigo culto

O rei se contorceu na cama
O rompimento estava feito
Sentia seu corpo em chamas
Apertava com força o peito
E viu entrar pela varanda
Aquele que é o Rei de direito

Tão logo pousou na varanda
Sentiu que agora estava exposto
Do jeito que realmente era
Com braços, pernas e com gosto
Sem penas, com pelo e cabelo
Sem bico, na cabeça um rosto

O jovem, a cara do pai
Correu com uma fúria antiga
Pelo castelo só gritando
Em busca daquela sua amiga
E o povo acordava e dizia
É o príncipe! Não há quem não diga!

Os dois se encontraram na sala
E se espantaram de repente
Se conheceram um no outro
E trocaram um beijo ardente
À volta, o povo se juntava
Sorria como antigamente

No alto daquela montanha
Há um castelo em ascensão
Com festas e fartos tesouros
Uma alegre população
De bela Rainha plebeia
E de um Rei que já foi falcão

-- Cárlisson Galdino

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