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CyanZine 11.6 - Technomyrmex Madecassus

29 ago 2011

Novo CyanZine!

 

Dois meses se passaram e aqui estamos com mais um CyanZine. Nesta edição, o MEC da Ana de Holanda continua voltando à pauta. O Governo parece bastante disposto a abandonar a cartilha que prometeu e implementar a agenda dos derrotados: privatizações, sucateamento do serviço público e, claro, desarticulação dos pequenos artistas e amplo apoio à Indústria do Copyright. Até quando isso vai continuar?

 

No tema da política, temos o cordel Dil Má como poesia desta edição.

Como nas edições anteriores, você encontrará muitos artigos bacanas, para se pensar, e também algo para descontrair. São charges do Vida de Programador e do Vida de Suporte, além do quarto capítulo do romance Marfim Cobra, na Dose de Leitura. Para completar, também falamos um pouco de RPG e jogos em geral.

Sugestões de artigos interessantes (sob licenças livres)? Entrem em contato!

E uma boa leitura!

Cárlisson Galdino
http://bardo.ws/

 

Foto desta edição: http://www.flickr.com/photos/elfiemcgilp/6064617499/

Baixe o CyanZine #3:

Asas Negras

14 jul 2011

Era uma casa simples no serrado
O Sol batia às cinco na janela
Sai Dun pro novo dia de trabalho
Sai Omora a varrer a casa dela

E ainda dorme Clais, sono profundo
E Hink, seu irmão, no quarto junto
Um menino e uma moça donzela

A Clais despertará em um segundo
E Hink, pra aborrecer todo mundo
É dia e todo dia a vida é aquela

 

Dun, o pai da Clais vive do campo
Cortando lenha como um condenado
Omora, sua mãe, dona de casa
Trabalha ela também outro bocado

E Hink, seu irmão, ainda moleque
É um carro de corrimão sem breque
Brinca com tudo certo e tudo errado

E Clais sonha, antes que a vida seque
Viver e a aflição é o que consegue
E tempo pra viver tendo um bocado

 

Ó que vida! Clais lamenta
Lá no topo da igreja
Quer morrer! A dor aumenta
Pois viver é o que deseja

"Ó que louca!" O povo grita
Lá do chão, olhando a Clais
"Vai pular!" A gente aflita
E ainda vem chegando mais

Ó que vida! A vida é cruel
Numa cidade de interior
O que será? Inferno ou céu?
Poderia ser pior?

Um brinquedo vai ao chão
Lá da esquina, no outro lado
É o Hink, seu irmão
Que a olha paralisado

Aves passeiam no azul
Clais queria ir também
Com asas de uirapuru
Ir bem rápido, ir além

Mas a vida é uma prisão
Com um braço machucado
Está distante do chão
Chora dali do telhado

No mundo sempre foi só
Baixa a cabeça descansa
Fecha os olhos contra o Sol
E vem aquela lembrança

 

- Ó Clais, a vida não é sempre ruim
Ó Clais, amiga, não fique tão triste
Há muita coisa chata por aí
Mas muita coisa boa também existe

- Yendi, não se preocupe comigo
Sei que a vida é boa, mas não consigo
Ver isso mesmo quando a gente insiste

- Ó Clais, só precisa de um ombro amigo
É só uma fase, ouça o que te digo
Verás um mundo bom se ainda não viste

 

- Yendi, sei, não quer me ver sofrer
Mas esse sofrimento é que me ensina
A viver essa vida ruim, viver!
Sei que vou me afogar, e a chuva é fina

- Ó Clais, pára com isso, vou embora
Você é nova e linda, ria agora!
Pois sofrer desse jeito não combina

- Yendi, se quer há rua lá fora
Não estou triste pra estar na moda
Tristeza é minha vida; a dor, a sina

 

"Nem mesmo minha amiga mais amiga
Entende o sofrimento que me mata
Que vá embora então, não a chamei!
Vem porque quer, então vá, sua ingrata!"

"Nem sei dizer donde vem a tristeza
Só sei que contra ela não há defesa
Ela vem e se instala e me maltrata"

"Se a vida é uma lata de surpresa
Trazendo algo de bom, tenho certeza
Que alguém abriu primeiro a minha lata"

 

Ia Clais pelo mundo entristecida
Olhando o rio, o verde, bicho e gente
Buscando uma resposta sem saída
Chorando por saber: ninguém a entende

Nem seus pais, irmão ou quem mais tentasse
Nem sua amiga ou mais ninguém da classe
Ninguém sabe sentir o que Clais sente

Como se um sonho estranho terminasse
O sol que queima forte à sua face
Lhe traz de supetão para o presente

 

A multidão se juntou
Assiste a vida de Clais
Cidade do interior
E um assunto pros jornais

Não há quem suba na igreja
Não há quem estenda a mão
Mas isso ela não deseja
Já sabe como eles são

"Ó vida cruel essa minha"
Pensa, não há esperança
Se é que isso ela tinha
O vento quente a balança

E logo Clais se levanta
Olhando toda essa gente
Sua angústia nunca foi tanta
Olha ao redor novamente

"Será que eu estou louca?"
Diz ao olhar pro seu lado
Ao ver com nitidez pouca
Um jovem anjo alado

- Meu nome é Shad, meu bem
Ele no mesmo telhado
Agachado aos poucos vem
De asas de um branco azulado

Pra Clais falta voz agora
"De onde ele veio? De onde?"
Ele a segura e decola
Levando Clais para longe

 

Nos braços desse anjo voa Clais
"Que lindo anjo os céus me têm mandado!"
Muito além de onde estavam ele vai
Até o porão de um lar abandonado

E o que agora restou pra essa moça?
Não há palavras mais, ou choro ou força
Só o delírio de ao céu ter chegado

E como o sonho de uma jovem louca
O anjo lhe abraça e busca a boca
Distantes do mundo civilizado

 

E a dor se torna em êxtase no beijo
E os olhos fecham, escondem novo brilho
E a tristeza se transforma em desejo
Desejo de ser dele e possuí-lo

No seu pescoço, a dor e ela deseja
São dentes que lhe cortam sem que veja
Língua, dentes e o que faz sentido?

E a força, que era pouca, já lhe deixa
Dormência e paz, mas a Clais não se queixa
E fecha os olhos pra jamais abrí-los

 

-- Cárlisson Galdino

Special: 

CyanZine 11.5 - Technomyrmex Kraepelini

5 jun 2011

Terceira edição do CyanZine!

Chegamos à terceira edição do CyanZine, uma proposta diferente que coleta textos sob licenças livres e os agrupa em uma publicação. Complementarmente, distribuí-do no formato ePub e, alternativamente, TXT e PDF, além dos próprios fontes em ODF. Ou seja, se quiser criar algo parecido, você tem acesso aos fontes! (tudo bem que o leiaute é simplista).

A maior novidade do Technomyrmex Kraepelini não está no CyanZine, mas no CyanCD, que agora é CyanPack! Algumas páginas à frente a gente fala sobre isso... No CyanZine, além de artigos meus, do Trezentos (o que seria do CyanZine sem ele?) e do Saindo da Matrix, esta edição traz artigos de Aurélio.Net, Monte Gasppa, Infowester e HomemBit.

Voltando aos formatos, a partir desta edição a distribuição em texto plano do CyanZine vai trazer também as edições anteriores. O TXT vai ser um compactado agrupando todas as edições já publicadas em TXT.

O mundo digital está forte nesta edição. O Cordel Digital anuncia a mudança dos tempos, enquanto o Jomar tem um ótimo artigo, que eu não tinha como ter deixado de publicar aqui. Vale muito a pena ler Software Livre não nasce em árvores: Do colonialismo ao extrativismo digital.

Quem tiver artigos legais (ou encontrar artigos legais) sob licença CC-By-NC-SA, me avisa!

Foto: Fishing Harriman State Park, por ScubaBear68. http://www.flickr.com/photos/22310955@N02/5864728031/

Baixe o CyanZine #2:

Cordel Digital

9 mai 2011

Finalmente, o Cordel Digital. E você? Já está participando da Promoção Cordel Digital?

Meus amigos, com licença
Vou falar da realidade
Desses dias de hoje em dia
Do que fez a humanidade
Desbravando com bravura
A mata da Literatura
Veja quanta novidade

Houve um tempo muito antigo
Que poeta tinha ideia
De escrever histórias longas
Fosse o leão da Nemeia
Odisseu e suas dores
Ou grandes navegadores
Era a tal da epopeia

Elas eram poesias
Enormes de se cantar
Descrevendo uma história
Que tentavam registrar
Era, eu sei o que digo,
Um costume mais antigo
Que se possa imaginar

Foi assim com o Homero
Que dos deuses recebeu
Dom sublime lá na Grécia
E desse jeito escreveu
Versos que são ouro e joia
Narrando a Guerra de Troia
E a jornada de Odisseu

Depois, entre os portugueses
Como em outras nações
Ressurgiu num certo dia
Outro poeta dos bons
Feito pra narrar o drama
No mar, de Vasco da Gama
Era Luis Vas de Camões

Desse modo, todo povo
Viu poeta inteligente
Talentoso e inspirado
Falando pra toda gente
Grandes fatos dos que viu
E assim, cá no Brasil
Não ia ser diferente

No Brasil, esse trabalho
Coerente e genial
De romancear em versos
Tem lugar especial
No Nordeste da nação
Vivo em uma tradição
Trazida de Portugal

Falando muitas verdades
Contra rei e coronel
Ou fazendo o povo rir
Só de pegar no papel
Há livros que são achados
Em um cordão pendurados
Levam nome de cordel

São livretos bem pequenos
Mas grandes em seu talento
Trazendo pra nós notícias
Ou um bom divertimento
Pequenos com poesia
Pendurados, quem diria?
Em feiras, no movimento

Tem mulher que virou bicho
Tem medroso e assombração
Tem disputa de viola,
De goela e munição
Tem relato corajoso
Do inferno endoidando todo
Quando chegou Lampião

Você encontra pelas feiras
Do Nordeste brasileiro
Sempre muitas opções
Versos narram por inteiro
Dramas e atualidades
Com mentiras ou verdades
Sempre por pouco dinheiro

Hoje já não há mais tanto
Mas antigamente havia
Pra vender esses cordeis
Que são pura poesia
Artista com emoção
E uma viola na mão
Narravam em cantoria

Mas o tempo foi passando
Tudo passa nessa vida
E essa tradição da gente
Tão antiga e tão bonita
Com as gerações mudando
Pouco a pouco foi minguando
Hoje está quase esquecida

Hoje há poucos cantadores
Pelas feiras do Nordeste
Há poucos cordéis à venda
A cultura poucos veste
Mas buscando, é forçoso
Achar um ou outro teimoso
Que na tradição investe

Hoje se acha por aí
Os clássicos do cordel
E uns que por muitos anos
Escondidos num papel
Criaram força de repente
Resolveram finalmente
Mostrar a cara pro céu

E hoje a gente olha pro mundo
O mundo está tão mudado
Todos vivem na canseira
Se matando por trocados
Numa correria louca
E a leitura, que era pouca
Foi ficando mais de lado

Com TV, rádio, Internet
Videogame, academia
Celular, computador
GPS, foi-se o dia
De moleza na calçada
E nessa vida estressada
Quem tem tempo pra poesia?

Em tudo botou o dedo
Essa Tecnologia
Disco já virou CD
PC encolheu, quem diria?
Aumentando a qualidade
E hoje já é realidade
O que o cinema previa

Hoje todos têm acesso
Ao que só teria o rei
Todos têm cartão de crédito
Celular, pelo que eu sei
Cada um tem três o quatro
Tevezona virou quadro
Filme se tornou blue-ray

E tudo foi progredindo
Como era o natural
E foram desencarnando
Do mundo material
Nessa evolução danada
Tão espiritualizada!
Tudo agora é digital

Ninguém precisa de disco
Pra música simplesmente
Converte pra MP3.
Jogo ou video facilmente
É só ter dispositivo
Player ou PC. E com livro?
Por que seria diferente?

Amazon entrou na dança
Lançando o tal do Kindle
Depois a Apple com o iPad
Que tanta gente acha lindo
Sony, Samsung e outras mais
Têm produtos quase iguais
E muitos outros vem vindo

São notebooks pequenos
Por tablets conhecidos
Pra navegar na Internet
Ver uns videos divertidos
Ver e-mail e conversar
Agendar e calcular
E também para ler livros

Ou são, mesmo parecidos,
Aparelhos diferentes
Feitos só para ler livros
Com uma tela inteligente
Para ler poesia ou crônica
A tal da tinta eletrônica
Pra ser bom de ler pra gente

Pois, amigos, desse jeito
O livro, que era papel
Hoje está só na memória
De um aparelho "do céu"
Tanto livro e saber
Vai num cartão SD
Que a gente fica pinel

E se hoje já há dicionário
Romance, HQ, mangá
Coletânea, manual
De quase tudo já há
Se tem lugar pra poesia
Revista, jornal e guia
O cordel não tem lugar?

O cordel tem que viver
É um marco dessa gente
Tem o seu lugar cativo
No coração do vivente
Do Nordeste brasileiro
E assim do Brasil inteiro
Talvez nem dele somente

Poesia gigantesca
É algo internacional
Se aqui temos cordel
Noutros cantos, tem igual
Cada povo, com efeito
Faz, na sua língua, seu jeito
Essa tradição legal

E se hoje todos falam
Da tal globalização
Por que não vir o cordel
Dar sua parte da lição?
Sair da feira do agreste
Para entrar na Internet
Qual no céu foi Lampião?

É por isso, meus amigos
- E não estranhem o fato -
Que o cordel tem o direito
De ter a turbina a jato
Que essa tecnologia
Oferece e a poesia
Cabe num livro abstrato

Hoje, nesses novos tempos
Que mudam nosso normal
Quando a vida é correria
E o consumo é sem igual
Tudo aos poucos é mudado
Que fique aqui registrado
O Cordel é Digital

E se a mudança não para
E se tudo se mistura
Pra estar no mundo global
Preservando a cultura
Quem sabe se alguém não cria
Disk-cachaça, e um dia
Download de rapadura?

Nessa era tão moderna
Marcada, pelo que sei,
Pelo compartilhamento
Que todos podem ser reis
Que a Arte humana tanto cresce
Quando será que aparece
Um repentista DJ?

E assim, meu caro amigo
É chegado o momento
De partir, já me vou indo
Grato pelo acolhimento
Até um outro cordel!
Boa sorte pra quem leu
E bons compartilhamentos!

-- Cárlisson Galdino

Special: 

CyanZine 11.4 - Technomyrmex Jocosus

1 mai 2011

Lançada a segunda edição do CyanZine. Agora fornecendo também em formato texto plano.
 
Bem-vindos à segunda edição do CyanZine. Como vocês devem notar, a quantidade de artigos caiu um pouco, afinal eu coleto artigos para montar a linha editorial da revista e é diferente se coletar artigos em apenas um mês.
 
O tema recorrente de Ana de Hollanda e MinC é, provavelmente, o que mais chama atenção. A história continua. A situação não é boa para a sociedade. Não enquanto o Ministério da Cultura, que é um órgão que deveria atender a interesses da sociedade, se curva totalmente a grandes corporações, revertendo avanços e querendo impor sua vontade, mesmo que isso tenha um preço muito alto para todos nós.
 
A outra tag desta edição é o 1º de abril. Este ano tivemos alguns artigos interessantes por aí. O Google mesmo, brincou bastante. Eles anunciaram o Earkut, um brinco que esquentaria a orelha do indivíduo sempre que alguém estivesse visitando seu perfil no Orkut; o Gmail utilizado por gestos, dentre outras coisas interessantes.
 
Este ano, fiz mais uma mentira de primeiro de abril. Esta foi sobre um suposto projeto da Canonical para concorrer com o Android: o Humanoid. Sinceramente, a ideia é boa e eu utilizaria, eu acho. As coisas caminham sob neblina no Software Livre por esses dias. Desde que o Gnome 3 saiu e grandes distribuições anunciam rejeição ao Gnome-Shell. A esta altura, o Ubuntu já deve ter sido lançado e espero que na próxima edição tenhamos uma posição mais definida no cenário dos desktops.
 
Esta edição traz algumas charges do blog Vida de Programador, inclusive uma de primeiro de abril.
 
Vamos em frente com os projetos. Espero que apreciem também esta edição, que agora está sendo distribuída também em formato de texto plano (já dá pra ler em celulares mais simples e MP4 players). Qualquer coisa, é só entrar em contato.
 
Um grande abraço!
 
A foto desta edição foi tirada no dia 25 de outubro de 2008 por Phil Photostream em Lisboa, Portugal. http://www.flickr.com/photos/iphil_photos/4407620244/
 
Baixe o CyanZine:

CyanZine 11.3 - Technomyrmex Ilgi

30 mar 2011

A ideia do CyanZine veio nesses últimos meses. O princípio é produzir uma revista eletrônica a partir de posts diversos, do meu próprio site e de diversos blogs que permitam legalmente isso e constituindo uma seleção de artigos. Claro, podemos ter contribuições, desde que se adequem à linha editorial.

 

Sendo um “projeto de uma pessoal”, dou-me ao direito de selecionar artigos que condigam com a forma como penso, evitando publicação de posts que me pareçam equivocados (como por vezes acontece em revistas de muitos colaboradores).

Pelo menos de início, portanto, o CyanZine vai funcionar mais ou menos como o CyanCD funciona. Enquanto o CyanCD é uma coletânea atualizada de softwares livres para Windows, o CyanZine será uma coletânea de posts.

Outra decisão referente ao CyanZine é a adoção do formato ePub como formato principal de distribuição. Sim, porque o ePub, além de ser um formato aberto de livro digital, é também um formato mais adequado do que, por exemplo, o PDF. O texto se adequa bem a qualquer dispositivo de leitura, sem dramas. É desta forma que, para incentivar um padrão aberto e divulgar essa ótima tecnologia, o ePub será o formato principal de distribuição do CyanZine. Alternativamente, disponibilizarei também um PDF. Porém, não espere para esse PDF uma “diagramação” como em revistas impressas. O nosso foco aqui é o conteúdo!

Também falarei no CyanZine da minha produção artística, além de manter uma coluna falando especialmente do CyanCD. A liberação de versões do CyanZine estará totalmente vinculada à liberação de versões do CyanCD, sendo os dois publicados sempre juntos.

Estou incluindo, nesta edição inicial, o primeiro capítulo do meu primeiro romance: Marfim Cobra. A ideia é fornecer para vocês uma leitura bacana a cada edição do CyanZine. Como o formato ePub, a meu ver, é bem agradável de se ler, especialmente em dispositivos apropriados para leitura digital, vou publicando essa sessão “Dose de Leitura”. De início, o Marfim Cobra, depois a gente passa para outra obra.

Como já mencionei antes, aceito contribuições de artigos, desde que se adequem à temática da revista, que por enquanto é indeterminada, mas que se pode deduzir um alinhamento temático simplesmente pela análise geral dos artigos que a compõem nesta edição inicial. Qualquer coisa, vocês podem entrar em contato comigo. E espero que apreciem este trabalho!

Baixe o CyanZine:

  • ePub (formato principal)
  • PDF (formato alternativo)
  • ODF (código-fonte)

Cordel Quilombola

23 dez 2010

Nossa história hoje começa
Muito além, além do mar
Numa Terra tão antiga
Terra de leão, jaguar
Elefantes e savanas
É nas terras africanas
Que tudo vai começar

Mas o que falo a seguir
Não é em nada ilusão
Este cordel é de História
Não fala de ficção
Leia tudo até o final
Este problema é real
E é causa de aflição

Mas chega dessa conversa
Vamos logo começar
A história dessa vez
Pois não gosto de enrolar
Eis o Cordel Quilombola
Tenha boa lida agora
Quem a ele se dedicar

Ó bravo povo africano
Forte e livre em seu lugar
Sim, nem sempre havia paz
Mas sabia guerrear
Com sua própria ciência
Seus costumes, sua crença
E seu modo de falar

Faziam sua própria história
Até vir um povo ufano
Trazido por águas turvas
Desse inconstante oceano
Com sua própria ciência
Seus costumes, sua crença
Diferentes do africano

Era esse o povo branco
De bravos navegadores
Orgulhosos das proesas
De suas crenças, valores
Que cegos pela vaidade
Perderam a humanidade
E empreenderam horrores

Para expandir seu império
Têm que ter trabalhadores
Os mais baratos possíveis
Mas fortes como tratores
E na ganância da ideia
Planejaram uma odisséia
De um caos viraram atores

Estimulando o combate
Entre tribos que eram amigas
Compravam presos de guerra
Das tribos que eram vencidas
Partiam barcos ligeiros
Levando um povo guerreiro
Para lhes dar nova vida

Eram navios reforçados
Orgulho de um povo inteiro
Guiado por homens maus
Desses porcos traiçoeiros
Que levavam os sequestrados
Nesses barcos lá chamados
Por eles navios negreiros

Nas colônias, povo negro
Com seu passado glorioso
Virou escravo dos brancos
Explorados até o osso
Sem ter ninguém que os salve
Ó que vida, Castro Alves!
Ó que destino odioso!

Trabalhando nos engenhos
Como fossem animais
Qualquer erro ou cansaço
Vinha logo o capataz
Se do chicote servido
Era o mais leve castigo
Pois havia muitos mais

Se o senhor daquele engenho
Gostasse de uma escrava
Levava a seus aposentos
E a agredia e estuprava
Sua família na senzala
Vendo o capataz levá-la
Não podiam fazer nada

Foi então que começaram
A testar a própria sorte
E fugir dessas fazendas
Num grande risco de morte
Por pura necessidade
Mas a tal da liberdade
Era o desejo mais forte

Fugindo só não deu certo
Podiam levar um tiro
E se escapassem com vida
Onde iriam? Que retiro?
Pois eram recuperados
E os castigos mais pesados
Eram prêmio garantido

Começaram a se juntar
Todo negro fujitivo
Numa vila independente
Para se manterem vivos
Quilombos eram chamados
Esses lugares criados
A esperança dos cativos

Quilombos foram surgindo
Combatidos com crueldade
Os senhores de escravos
Não mostravam piedade
Contra eles, que brigavam
Pois tudo o que desejavam
Era ter a liberdade

Foi mesmo um grande caminho
Pra acabar a escravidão
Por medo da Inglaterra
Proibiram importação
Punindo o navio negreiro
Capitão e o povo inteiro
Envolvido na infração

Pouco a pouco foi chegando
A liberdade sonhada
Mas para isso foi preciso
Muita luta e muita estrada
Muito sangue correu o chão
Muitos mortos sem caixão
A disputa foi pesada

Os intelectuais
Brigavam lá no senado
Eram os abolicionistas
Que lutavam de bom grado
Contra os colegas de lá
Faziam o que precisar
Pra libertar os escravos

Assim leis foram surgindo
Em auxílio àquela gente
Foi a Lei do Ventre Livre
E outras vinham mais à frente
Mesmo sendo complicado
Cobrar que fosse aplicado
O que a Lei diz tão solene

A Lei Áurea foi, por fim
A que abriu portas no céu
Lhes dando a liberdade
Tudo justo no papel
Decreta com precisão
O final da escravidão
Pela Princesa Isabel

Assim o tempo passou
Tudo passa nessa vida
E o negro hoje é igual
A vitória é conseguida
E sendo assim, desse jeito
A todos, iguais direitos
A todos, igual medida

Claro que o pior passou
Mas e tudo o que foi feito?
E a cultura violada?
E os anos de preconceito
Desde um tempo mais distante
E ainda hoje está tão grande?
Como está está direito?

Muitos negros hoje vivem
Na luta, aqui, na marra
Na nossa sociedade
Com orgulho e muita garra
Honestidade e respeito
Mesmo assim, há preconceito
Essa vida é uma barra

Outros ainda têm raízes
No passado, suas nações
E se orgulham de manterem
Seus valores, religiões
Seus costumes, seus assuntos
E se agrupam, vivem juntos
Pra preservar tradições

São estas comunidades
Quilombolas conhecidas
Por alguns, por outros não
É onde eles levam a vida
De artesanato e plantio
Há várias pelo Brasil
Mas sua luta é sofrida

É desde oitenta e oito
Pra reparar todo o erro
Cometido contra todos
No passado que o Governo
Reconheceu de verdade
Diversas comunidades
Quilombolas nesse termo

É nesses "novos quilombos"
"Aceitos" pelo Estado
Que vivem os quilombolas
Mantendo vivo o passado
A cultura e o restante
Tudo aquilo que é importante
Não dá pra deixar de lado

Mesmo a constituição
Reconhecendo o direito
Dessas tais comunidades
Nem tudo saiu perfeito
É enorme o tormento
Pra ter reconhecimento
De uma terra desse jeito

Ainda são poucos terrenos
Que estão legalizados
Esse "aceite" do Governo
Não é fácil nem folgado
De todas as formas, tentam
Mas tanto problema enfrentam
É um fim de mundo danado

O Governo tem a verba
Própria pra auxiliar
Gente de comunidades
Quilombolas, sempre há
Mas tem que pedir primeiro
Formalmente e o dinheiro
Parece nunca chegar

Pra completar esse quadro
De tanta dificuldade
Ainda há certos doutores
Que vêm da Universidade
Com projetos tão enormes
Recolhem verba e se somem
Nada chega na verdade

Alguns ainda se aproveitam
Da cultura popular
Das pessoas quilombolas
Colhem plantas do lugar
Falam com o povo local
Sobre o uso medicinal
Pra depois patentear

O que tem desses projetos
Bonitos, são quase um céu
De plantio, de benefícios
Tudo lindo no papel
Vem a verba e, então, agora
Todo mundo vai embora
Nem centavo no chapéu...

Pena que todos esquecem
Que essas comunidades
Cada uma é diferente
Tem próprias necessidades
Não se pode assim tratar
Sempre a generalizar
Não ajuda: eis a verdade

Parece que não notaram
Que toda aquela gente
São pessoas, mesmo tendo
Uma cultura diferente
E precisam de respeito
Isso é de todos direito
Mais respeito urgentemente!

O povo negro sofrendo
Pra ajudar, Governo vem
Parece que só pensaram
Num "nome bom", nada além
"Pra ficar bonito agora
Chão de preto é quilombola"
Isso enche a pança de quem?

E esses projetos fajutos
Que vêm sempre procurar
As pessoas quilombolas
Pra no fim só explorar
Criem vergonha na cara
E o Governo, olhe para
Punir quem quer enrolar!

Já passou mais de um século
Que a escravidão findou
Com ela a desigualdade
Ou era o que se pensou
Pois a ver a trajetória
Ao consultar a História
Me pergunto: o que mudou?

Special: 

Do Livre e do Grátis

27 nov 2010

Cordel Do Livre e do Grátis

No mundo tecnológico
A gente escuta falar
Sobre um monte de programas
Que se pode utilizar
Sem precisar muito esforço
Nem botar a mão no bolso
Isso costuma animar

São programas mais diversos
Que muitos chamam de "free"
Mas isso tem um problema
Que está na palavra em si
Pois esse "free" pode ser
Livre ou grátis, e você?
Você sabe diferir?

Pois é disso que se trata
Esse cordel na sua frente
Vou te mostrar com cuidado
Que é muito diferente
Livre e grátis, mesmo que
Em inglês chamem de "free"
Português é mais decente

Ao conseguir um programa
Sei que isso é bem confuso
Mesmo quando você compra
É o programa que é incluso
Pois saiba que o principal,
O que se compra afinal,
É a Licença de Uso

Isso é um documento
Que te diz em legalês
O que pode ou não fazer
Documento que alguém fez
São deveres e direitos
E assim não tem mais jeito
A não ser seguir as leis

Se o programa é colocado
Num site da internet
Pelo próprio fabricante
Pra que todo mundo pegue
"Estou livre", você pensa
Mas ainda tem licença
Que você se compromete

Quando se diz de um programa
Que é gratuito, quer dizer
Que não precisa dinheiro
Para aquilo a gente ter
Mas aquilo não é nosso
Não quer dizer que eu posso
Fazer tudo o que quiser

Grátis é sobre dinheiro
O que é livre é pra voar
O grátis é pessoal
Livre é pra compartilhar
Os dois têm o seu limite
Mas o do livre existe
Pro direito propagar

Para você ver melhor
A diferença tão viva
Entre o livre e o grátis
Vou parar a narrativa
Pra do jeito que eu puder
Te explicar quando é
Que um programa é livre

Para ser considerado
Sendo livre de verdade
Um programa tem que ser
Pela solidariedade
Quem recebe um desse jeito
Tem que ter certos direitos
São as quatro liberdades

A primeira liberdade
Fala da utilização
De usar esse programa
Sem ter qualquer excessão
Em qualquer necessidade
Pra qualquer finalidade
Em qualquer situação

A segunda liberdade
Tem a ver com o estudo
Entender como ele é feito
E se eu quiser eu mudo
Para ver no que é que dá
Também posso melhorar
Podemos bolir em tudo!

A terceira liberdade
É a de distribuir
Para quem você quiser
Quem quiser adquirir
Multiplicar, quem diria?
Não é mais pirataria
Pelo menos não aqui

A última liberdade
É para a evolução
Pra melhorar o programa
Aumentando sua função
E a sua utilidade
E no fim, a novidade
Espalhar com satisfação

Todo software livre
Vem também com uma licença
Mas como há muito programa
Seguindo a mesma sentença
Licenças são reusadas
Facilitando a jornada
De quem lê cada licença

Também ele dá acesso
À forma como foi feito
O tal de código-fonte
Pra usarmos os direitos
Pode ser inspecionado,
Espalhado, melhorado,
Socialmente ele é perfeito!

Para um programa ser grátis
Há mil modos, mil efeitos
Pra facilitar o estudo
Separamos em conceito
Porém, veja se não pensa
Que usam a mesma licença
Eles não são desse jeito

Existem uns limitados
São sharewares e demos
Existem na versão paga
E essa outra que nós vemos
É a versão mutilada
Que eles deixam limitada
Pra que nós experimentemos

Há quem limite os recursos
Escondendo alguns botões
Outros limitam no tempo
Ou contam execuções
Pro usuário acostumar
E depois ter que comprar
Pra não ter limitações

Há os que são freewares
São gratuitos pra usar
Alguns pedem doação
Ou um convite pro bar
Talvez um cartão postal
Mas é sempre opcional
Só se o usuário gostar

É legal por ser de graça
Mas cabe a preocupação
E se não for mais assim
Em uma nova versão?
E acontecer de a gente
Se tornar bem dependente
Como fica a situação?

Outra coisa a estar atento
Em programas desse tipo
É sobre a situação
Em que isso é garantido
Ele é grátis para quem?
Nisso limitam também
Esse povo é bem sabido

Tem grátis que só permite
Que a gente use em casa
Grátis só para os States
Grátis, mas não para a NASA
Grátis só pra educação
Só pra uma instalação
Que se leia e que se faça

E o programa, sendo assim
Quem garante que ele não
Captura os seus dados
E manda pro Uzbequistão?
O programa é fechado
E a gente tá lascado
Se ele for um espião

Assim a gente percebe
Que nessa situação
Esse grátis é problema
Não é para tudo não
Você não pagou, tá massa
Mas mesmo sendo de graça
Ainda há limitação

Programas têm que ser livres
Você nota facilmente
Mas isso não quer diz
Dar o código somente
Há casos, na realidade.
Meia e falsa liberdade
É um problema recente...

O primeiro desses casos
Que eu irei relatar
É quando o programa é livre
Mas para modificar
Muita coisa necessita
Muita coisa que é restrita
Para poder compilar

De que adianta o direito
De mudar todo o programa
Se pra gerá-lo de novo
E dar vida às mudanças
Usa um compilador
Que o seu fornecedor
Tornou fechado, sem drama?

O programa será livre
Mas será bem limitada
Essa liberdade aqui
Não como ela é desejada
Pois você pode mudar
Mas pra mudança aplicar
Depende da presepada

Para evitar o problema
Meu caro programador
Escolha bem sabiamente
Dentre o que tem a dispor
As melhores ferramentas
Também livres, bem isentas
Que assim será melhor

Outro caso acontece
Lá nos Estados Unidos
Querem eles que aconteça
Em todo canto e sentido
A nova praga é somente
O uso da tal patente
Protegendo o algoritmo

O programa é escrito
É livre, pode olhar
Mas a tarefa que faz
Alguém em outro lugar
Teve a ideia primeiro
E foi correndo ligeiro
Para ela patentear

Assim o programa, livre
Tudo certo e ajustado
Precisa de uma licença
Para poder ser usado
Uma  licença diferente
Autorizando a patente
Vê que triste resultado!

A tal patente de software
Essa praga que se fez
Por enquanto aqui não vale
Mas pra esse mal não ter vez
Foi criada uma licença
Livre e livre da doença
É a GPLv3

Meu caro programador
Para evitar dependência
No seu programa, que é livre
Dessa armadilha tão tensa
O programa que criar
Quando você for lançar
Pode usar essa licença

Uma coisa que ela faz
Contra esse mal que foi dito
O direito da patente
Quando o software é cedido
Se o fornecedor tiver
Patente que se requer
Pode usar, está subentendido

Vejam como é complicado
Temos um nobre conceito
Que tanta gente defende
Pra nos garantir direitos
Mas também sempre vai ter
Um que queira distorcer
Só para tirar proveito

Caro amigo, pois prefira
Ser alguém com liberdade
Nunca foi questão de preço
Mas poder à Sociedade
Segurança e independência
Compartilhar a ciência
Pela solidariedade

Esteja atento toda hora
Pro que pode acontecer
Liberdade é valiosa
Cuidado pra não perder
Atenção a todo instante
Todo detalhe é importante
Ou pode se desfazer

Cuidado com as armadilhas
Que encontrar pelo caminho
Seja livre e se preocupe
Também com o seu vizinho
Valorize a Liberdade
Tenha solidariedade
Não se é livre sozinho

Special: 

Lowtech no Hightech

25 abr 2010

Lowtech no Hightech

Apresentei duas palestras no FLISOL aqui em Arapiraca ontem. Uma delas foi Do Copyright à Pirataria (depois publico os slides. Achava que já tinha publicado aqui, mas pelo visto não :-P).

A outra palestra foi Lowtech no Hightech, tratando de como truques e recursos de baixa tecnologia ajudam a vida de quem trabalha com alta tecnologia no dia a dia. Usem sempre recursos sob demanda!

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