Além das Formas

22 jul 2011

"Um novo mundo se abre, em cores e formas e som. Imagine um céu azul em um jardim colorido. Imagine uma noite de reveillon na praia. Imagine a Disneylândia! Não tem nada a ver com nada disso: é ainda mais intenso."

"Poxa, é difícil de explicar! Eu olho para as minhas mãos e vejo que elas não têm forma exata. Olho ao meu redor e vejo tudo mudando também. Vai dizer que eu estou louco... Claro! É o caminho mais fácil! Não, eu não estou louco. E digo isso não como quem "acha que não está louco": eu tenho consciência plena disso e de muitas outras coisas agora. Mas o mundo real me chama de volta..."

- O que ele tem?

- E eu é que sei?

Duas meninas rodeiam o estudante que dorme debruçado sobre a carteira.

- Você está bem? Simbá?!

Ele ergue a cabeça e esfrega os olhos com uma cara que qualquer um diria "deixa pra lá, vai dormir...". Qualquer um, mas não a Rose.

- Ei! Você prometeu!

- O quê que eu prometi...?

- Que ia jogar no fliperama comigo.

Ele arregala os olhos, como quem "cai" na realidade. Não são as palavras de sua irmã mais nova, é algo mais.

- Sim, vamos.

- Estou indo pra casa. Painho está vindo me buscar...

- Tá bem, Anne. De noite a gente conversa.


Pela rua caminham os dois. Quem os vê nota claramente Simbá com a cabeça em outro lugar. Mas a cabeça dele não está em lugar nenhum. É como um transe, ou como um estado de silêncio após êxtase. Não está pensando, só sentindo. E sabe perfeitamente que há algo errado.

Sua irmã tagarela sobre tudo que houve na escola. Entra por um ouvido e sai pelo outro...


- Ela já está no papo. Você é o próximo.

- O que você disse?

- Nada!

- Você está estranho, Simbá! Algum problema?

- Não, tudo bem...

"Podia jurar que ouvi a voz de Rose..."

Ele vai até o balcão e compra algumas fichas com o sujeito engraçado. Vão para a máquina de jogo de luta. Alguma coisa of Fight... Depois de Street Fighter parece que todo jogo de luta coloca "fight" no meio e usa um tipo de letra cada vez mais estranha.

Coloca uma ficha. Segura os controles e... Uma explosão de silêncio e uma luz branca de fazer inveja aos comerciais de sabão em pó.


Ele abre os olhos atordoado. Não que precisasse pra saber que estava de novo ali. Sem forma certa, sentindo todo o ambiente. Mas sente um peso enorme agora. Um peso que ele até sabe de onde vem.

- O que você quer com a Rose?

- Ho! Ho! Isso não são modos, garoto?

A figura tem um corpo vermelho e preto, chifres e um focinho longo. Garras em braços desproporcionais. Um brilho estranho, como uma gravitação própria. Tudo fica mais denso por ali. Ele não responde. Simplesmente encara o estranho ser, enquanto mergulha cada vez mais nas sensações, tentando entender exatamente do que se trata tudo isso.

- Rose... Aquela menininha? Quero nada com ela não. Ela não tem graça. Você tem.

Reunindo todas as forças, Simbá salta sobre ele. Não há nada lá. É como se nunca houvesse existido. Num instante "todas as forças" parece algo tão mínimo...

As forças vão sumindo aos poucos e ele não sabe porque.

- Você é muito verde, garoto...

Olha pra cima e tem uma visão aterrorizante. Talvez mais aterrorizante por poder tocar e respirar sentimento do medo. Aquele ser flutua a dois metros dele e sua boca comprida está colada nas costas de Simbá. E Simbá sente seu corpo como era antes. Nada mais de poderes indescritíveis. Nada mais de forma sem forma. Só dor, fraqueza e medo. Medo não, pânico.

- Hahahahahhaa!!

Não há qualquer controle mais. Ele quer correr. Ele quer fugir dali! "O que eu pensei! Quem eu pensei que era!?"


Simbá cai nos braços de alguém. Sua irmã o olha e misturado com a imagem de sua irmã, ele vê um rosto estranho, mas sente no rosto força e nobreza que quase pode tocar.

- O que houve?

Enquanto sua irmã diz "Você desmaiou", ele ouve o nobre rosto falar também e as vozes se mesclam: "Não devia se meter em encrencas assim sozinho".

- O que era aquilo?

- Não queira saber. No futuro talvez saiba a resposta. Por enquanto, estude que é o melhor pra vocês dois.

-- Cárlisson Galdino

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