Punição

12 mai 2012

Flap, flap, flap... Como um metrônomo asas batem compassadas há longos minutos. No céu aquela criatura se desloca entre duas cidades distantes. Cidades estranhas, de uma terra estranha. O ar pesado, o céu está escuro em tons de cinza. As pessoas se matam lá embaixo por trocados, na esperança de poderem comprar aquilo de que nunca precisaram.

São cidades em ruína. A fumaça corrompe a atmosfera do planeta enquanto as invenções já corromperam o coração dos homens.

Em meio a esse caos e alheio a tudo isso, aquela criatura voa. Voa e já consegue ver a cidade, o que é espantoso se há tanto cinza no ar. Ele voa e sorri, levando nas mãos aquele globo, que traz de tão longe.

Suas roupas vermelha e branca em farrapos. Suas asas, que deixam suas costas e batem em um ritmo constante, parecem cansadas.

Logo vem a guarda da cidade. São serpentes que voam, têm chifres e asas. Elas não esperam: atacam.

Os olhos do viajante se concentram na presença da ameaça. São três serpentes. Com habilidade, ele movimenta as asas arremessando o corpo subitamente para cima. As serpentes se jogam no vazio que ele deixou, mas desviam e o seguem no seu vácuo.

Complementando seu movimento, ele mergulha surpreendendo os pequenos monstros com garras que cortam como navalhas.

O primeiro movimento lhe deu apoio para esse mergulho e, ao mesmo tempo, obrigou as serpentes a reduzirem sua velocidade. Agora, pedaços de serpentes se contorcem nos céus, em queda livre. Caminho livre.

E ele respira fundo, mas vai em frente. Ali está a cidade, sem saber de sua chegada.

Dos céus ele pode ouvir o som inconfundível das festas e cultos impuros. Franze a testa e segue em frente, com ainda mais determinação do que antes.

A praça principal da cidade está em festa. Comemoram alguma banalidade qualquer. O que seria desta vez? Aniversário de alguém ou de algum dia especial? Uma vitória na Arena? Política? Que importa? A criatura vem suavemente.

Do chão alguns ainda param para ver melhor. Aquele ser alado deslizando nos céus até a estátua do cálice de ouro, no topo da coluna, no meio da praça.

Quem vê demonstra a mais honesta alegria. Em suas mentes a incerteza do que veem. Seria uma criatura alada ou seria fruto de tudo o que vinham consumindo nos últimos momentos? Últimos momentos...

O globo é deixado no cálice e a criatura se afasta, rapidamente, seguindo o caminho contrário ao que a trouxe.

Fora da cidade, ela reduz a velocidade e gira no ar, virando-se de volta. E observa.

Flap, flap, flap... Observa.

Uma chama esfumaçada começa a aparecer. Ela cresce em espiral a partir da praça. Ela se expande em espiral, como uma bola de fogo amarrada ao centro, enrolada, girando presa pela corda e aumentando o raio por estar se desenrolando. Uma bola de fogo que deixa fogo por onde passa. Aquele disco de fogo aumenta até consumir toda a cidade.

E aquela criatura apenas observa.

Flap, flap, flap. E sorri. E acha aquilo lindo.

Então, dá as costas e volta para casa, bem mais lenta do que quando veio trazendo o globo. Agora volta levando a sensação de dever cumprido.

-- Cárlisson Galdino

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