Escarlate #10 - Rubi

30 mai 2009

De volta ao hotel. Agora sim, com bagagem. Os vendedores insistiram tanto em levar as roupas que Zand aceitou que um entregador o acompanhasse até a porta do apartamento.

Deixando as caixas sobre a cama, Zand se dirige ao banheiro. Nele o que chama a atenção é a banheira curvada. De tamanho que comportaria quatro ou cinco pessoas com conforto. O espelho...

Zand desiste e volta para o quarto. Iria tomar banho, mas a “tatuagem” vermelha em seu rosto lembrou o inconveniente: os desenhos que fez no corpo - o losango no rosto e a árvore no braço – não são exatamente tatuagens. Vão sair com banho. Assim, pouco lhe resta a não ser esperar o tempo passar para comprar material que sirva para refazer as tatuagens sempre que precisar desmanchá-las.

O problema é que refazer tatuagens pode levar a imprecisões que poucos seriam capazes de perceber. E esses poucos seriam justamente os que não poderiam perceber...

Mas este é um problema futuro. Antes, Zand tem que arrumar a tinta e os pincéis, já que deixou os utilizados na hospedaria do Wrivee. Mesmo este é um problema para mais tarde. O que ocupa a mente de Zand é aquela tal de Rubi. Há algo muito estranho nela e Zand não consegue perceber exatamente o que é. Em todos esses anos como aventureiro, já conheceu muitas “princesinhas”, destas muitas destemidas. Já conheceu meretrizes, sacerdotisas, assassinas, nobres, guerreiras, magas... Mas nenhuma delas olhava com aquele olhar firme a ponto de paralisar.

Ao se dar conta de que já é meio-dia, Zand se levanta, empolgado com tanto mistério. Não saem da sua mente duas incríveis possibilidades: Rubi ser uma aventureira muito parecida com ele próprio, com habilidades incríveis, disfarçada também para uma missão; ou sua busca estar bem próxima de um fim.

Troca a roupa por um traje prateado leve e deixa o quarto rumo ao bar.


 

O bar é como os bares costumam ser. Os pequenos e organizados, pelo menos. Não mais que quatro mesas em linha, além dos bancos acompanhando o balcão. A diferença que se nota de início é que a madeira daqui não tem muita história pra contar. Não há marcas de golpes, rachaduras e amassados nas mesas e cadeiras. E lá está Rubi, de costas para a entrada na terceira mesa a contar da porta.

- Olá, sente-se! O que vai querer? Eu adoro os peixes que eles preparam. O que me diz?

- Pode ser.

Ela pede ao garçon os pratos e solta um sorriso encantador para Nazavo.

- O que Nazavo veio fazer em Diwed?

Pergunta difícil. Zand não havia parado para pensar tantos detalhes de seu disfarce. Afinal, não esperava que seu personagem chegasse até a ter um “encontro”.

- Nazavo está indo a Cehdiw visitar sobrinha.

- Que legal, tem família lá?

- Não, só Quarfá, sobrinha desmiolada de Nazavo que casou com rico de lá.

- Que interessante! Quem é o marido dela? Sabe, eu nasci e me criei em Cehdiw! É uma cidade interessante.

- Nazavo não lembra nome, mas era carpinteiro.

- Será que não foi o Jihs?

- Nazavo não lembra se era.

- Tem o Popgas também.

- Desculpe, Nazavo não lembra.

- Como ele era?

- Ah, Nazavo não sabe, está indo visitar Quarfá pela primeira vez.

- Ah, que bonitinho... Vai visitar a irmã que casou... Pode apostar que Nazavo vai gostar de Cehdiw!

Rubi sorri espontânea e simpática. Está de brincos finos e longos, de tons esverdeados. Sua roupa, entretanto, é vermelha. Mas de um verde e de um vermelho que harmonizam entre si.

- Nazavo tem esposa?

- Como?

- É, vejo que tem uma aliança no dedo.

- Não, Nazavo gosta de jóias.

- Estranho... Geralmente quem usa aliança por gostar de jóias costuma usar mais de uma...

- É, Nazavo tinha muitas, mas roubaram de Nazavo.

- Que pena... Machucaram Nazavo não, né?

O rosto de Rubi adquire uma expressão tão terna que comove facilmente.

- Não, Nazavo está bem. Só roubaram de Nazavo.

- Sinto muito. Pelo menos deixaram uma, né?

- Essa Nazavo comprou depois.

- Ah, e o dinheiro! Roubaram o dinheiro? Se Nazavo precisar de ajuda com o hotel...

- Obrigado, mas Nazavo pode pagar o hotel.

- Dá raiva esse crime solto aí fora, né?

Rubi olha para baixo como quem pensa sobre algum assunto recente.

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