5 set 2009

Escarlate #24 - Sob as Estrelas

Submitted by bardo

É fim de tarde. O céu desenha um lindo quadro em tons alaranjados. Zand avista o céu de um pequeno morro, próximo a uma árvore onde descansa Tornado. Ali sentado, Zand pensa na vida enquanto observa o céu.

A cidade fica bem perto dali. Afastou o suficiente apenas para pensar na vida. Tanto tempo se passou desde aqueles dias...

Zand recorda os momentos ao lado de Knova. Tocando banjo e cantando músicas de improviso para ela, trocando alguns beijos e carícias. Um relacionamento complicado, mas aos poucos Zand ia percebendo a beleza no coração de Knova, mesmo ela sendo quem era. E percebia que por trás de todo aquele orgulho havia uma alma que sofria da vida que levava, mas que jamais admitiria sofrer por qualquer que fosse a razão. A solidão fortalece, mas também enfraquece e, no fundo, Zand via em Knova o claro resultado dos dois efeitos.

Houve outras, mas nenhuma despertou tanto sua curiosidade e seu afeto como Knova. Talvez nenhuma antes de Rubi...

Na companhia apenas de Tornado, sua montaria fiel, Zand deixa uma lágrima fugir de seu olho direito.

“Eu sou um idiota. O que os deuses fizeram comigo que só me apaixono por mulheres perigosas? E agora por duas ao mesmo tempo... Entre a dragoa e a assassina. O que será de mim? Não era pra ser assim. Eu sou um bardo, droga! Bardos têm muitas mulheres para escolher, por que eu não me agrado de uma mais 'normal'?!”

Um cavalo se aproxima, vindo da cidade. E não precisa se aproximar muito para Zand perceber quem vem ali.

- Rubi... - E olha mais uma vez para o céu, que já escurece. - O que vem fazer aqui? Me atazanar?

Ela se aproxima com um vestido vermelho vivo e um casaco marrom avermelhado em um cavalo negro. Prende-o na mesma árvore onde está Tornado e se aproxima do solitário Zand.

- Você está bem?

- Estou, obrigado.

Ela se senta ao lado dele e começa a olhar o céu também.

- Isso lembra aquele dia lá na Raposa da Lua, não é?

- É mesmo... Exceto que a Lua não veio.

- Faz pouco tempo, não é? Ela deve se atrasar hoje, mas sei que virá. Podemos esperar por ela se quiser.

Zand não responde. Simplesmente continua olhando o céu pensativo.

- Venha, você deve ter ficado muito tempo aqui. - Rubi faz com que deite a cabeça em seu colo. - Deve estar cansado.

E desliza os dedos pelo cabelo de Zand, enquanto seus olhos também são atraídos pelo mesmo céu.

- É verdade aquilo que pareceu? Você tem um romance com aquele dragão?

- Foi há muito tempo...

- Deve ser interessante. Uma experiência diferente, não é? Se bem que um relacionamento onde um é muito mais forte que o outro sempre traz problemas, por isso não tem como dar muito certo esse tipo de coisa.

- Como assim?

- Se um dos dois é muito mais poderoso que o outro, um sempre vai decidir tudo e o outro vai ter que obedecer sempre. E isso não é muito direito.

- Tem razão... Não havia parado pra ver por esse ângulo. - Desvia entáo os olhos para o rosto delicado de Rubi.

Os traços suaves e aquele olhar determinado e firme, dessa vez calmo e meio perdido no infinito.

- Rubi... Você é uma mulher incrível. Determinada, inteligente... E parece tão jovem ainda.

- Obrigada. – Ela olha para Zand e sorri. - E o que há entre vocês dois hoje?

- Sinceramente, não sei.

- Como assim? Não me diga que ela sumiu e só te procurou depois que precisou da sua ajuda...

Zand fecha os olhos e suspira.

- Acho que foi mais ou menos isso mesmo.

Rubi continua olhando Zand com ternura e deslizando os dedos por seu rosto e cabelo.

- Zand... Ela não quer nada com você. É um dragão. Dragões são egoístas. Só quatro coisas são importantes para um dragão: sua própria vida, seu próprio esconderijo, seu próprio tesouro e sua própria solidão.

- Talvez você esteja certa. Ainda não tenho certeza sobre isso.

- Você é só uma marionete dela pra quando ela precisar de alguém que a ajude no mundo dos humanos. Se ela não visse essa utilidade em você, já teria te matado.

Zand se senta, ainda pensativo. Rubi o abraça e lhe dá um beijo ardente. Os dois se deitam sob as estrelas.


 

Zand olha a pequena cidade de Cehdiw sob os primeiros raios do Sol. Seu olhar indeterminado de uma alma inundada de incertezas. Então volta os olhos para a estrada que seguia. Em seu fiel Tornado, ele parte para longe da cidade, tentando fugir do caos que traz dentro de si mesmo.

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