12 set 2009

Escarlate #25 - A Caminho de Efrea

Submitted by bardo

- É, moleque, a vida de aventureiro traz muito perigo, muitos desafios, mas você vai gostar. Vejo o brilho nos seus olhos quando falo certas histórias. Acredite, não são poucos que ouvem minhas histórias e eu sei ler muito bem a reação de cada pessoa. Há aquele brilho admirado mas morrendo de medo, de quem pensa que nós somos heróis. É comum em jovens donzelas. Há aquele brilho escondido, tentando se disfarçar de indiferença, que é comum naquelas pessoas que discriminam os aventureiros. No fundo, a maioria dessas pessoas queria ter histórias assim pra contar também, mas não foram capazes e não querem tentar a essa altura... E há o brilho que vejo nos seus olhos.

- E que brilho é esse?

- É o brilho de quem daqui a dez anos terá tantas histórias para contar quanto eu próprio!

Um rapaz esguio ouve encantado as palavras daquele homem em roupa colorida de chapéu de pena, na sala de casa. A mãe do rapaz passa pelo corredor e olha os dois com reprovação.

O jovem Zand sempre se empolga quando vêm aventureiros de passagem pela sua terra, mas aquele Altapion lhes incomoda. Como se ele fosse capaz de arrancar Zand da proteção de seus pais e por isso seus pais não simpatizam com ele.

Mas já sentem que a partida de Zand é quase inevitável, a qualquer momento. Ele é um espírito livre. Nasceu para ser aventureiro mesmo,

- Uma coisa engraçada de quem é aventureiro é que não dá pra gente ser casado. A menos que você se case com uma aventureira também, mas elas são raras e imprevisíveis. Se a gente se casa a gente tem que deixar a vida de aventuras. Por mais que as mulheres nos admirem por irmos terra acima e terra abaixo enfrentando monstros e resgatando tesouros, elas não vão querer ficar sozinhas em casa um ano inteiro, menos ainda nos acompanhar por todo canto.

Ele pára um pouco para beber. Então continua.

- Mas em toda terra há jovens admiradas com heróis. É fácil conquistar meninas assim, ainda mais quando você canta suas próprias aventuras com uma lira: elas ficam loucas! Então, a menos que a gente caia na besteira de se apaixonar mesmo por uma delas, viver solteiro não tem o menor problema! Ah, mas tenha muito cuidado! Faça de tudo pra descobrir se as sujeitas não são comprometidas... Sempre alguém termina tendo problema por causa disso...


 

Zand segue, afastando-se de Gwootra na companhia do seu fiel cavalo Tornado. Gwootra foi a única cidade que visitou desde que deixou Cehdiw. Onde almoçou e agora segue viagem rumo a Efrea.

“Devia ter seguido os conselhos de Altapion... Onde será que ele anda agora? E o que faria no meu lugar? Ele com sua lira e sua tagarelice.”

Se ainda o paradeiro de Altapion fosse conhecido, certamente Zand iria procurá-lo. Altapion não negaria conselhos, ele adorava Zand e adorava falar. Havia praticamente adotado Zand como um aprendiz do seu ofício! Mas há anos todas as pistas sobre o paradeiro de Altapion sumiram.


 

- Ha ha ha! Você tem que tocar com mais delicadeza, Zand! Lembre-se: mulheres e instrumentos musicais se trata com carinho! Tem que ser suave, uma corda por vez...

- Eu não entendi ainda. Como é que você consegue fazer essas músicas usando isso?

- Zand, Zand... Este é o segredo de qualquer ofício. Não é só com bardos que as coisas funcinam assim. Homens peritos num ofício conseguem fazer coisas prodigiosas com suas ferramentas de trabalho. O diferencial não está nas ferramentas, mas em quem as manipula. O conhecimento é importante. Deixa eu pegar a minha lira.

- Tome.

- Não, a minha.

- Mas esta não é sua?

- Não, esta eu comprei pra você! Pra que você pratique bem muito mesmo quando eu estiver fora com o Besouro Invisível resolvendo missões. Porque você tem que valorizar muito a prática. É a prática, e só ela, que leva à perfeição.

- Mas ela é tão bonita... E está nova... Não posso...

- Não seja besta, Zand! Você precisa praticar. Além do mais, acontece com todo homem que é apaixonado por sua profissão de chegar um momento em que sente necessidade de passar seu conhecimento para alguém. Aceite esse presente como uma forma de agradecimento por ter me dado essa oportunidade de te ensinar. Mas lembre-se: a lira é só um monte de tripas amarradas, a menos que você saiba o que fazer com ela.


 

Faz tanto tempo que Zand não vai à sua terra natal. Mas não é essa terra que ele está visitando. Ele teve dois mestres. Altapion, com toda certeza, seria o mais indicado a lhe aconselhar. Zand tem certeza de que ele saberia o que dizer. Se na época em que o conheceu já o considerava tão sábio, como não estaria hoje?

Mas a vida segue por caminhos tortuosos e Altapion aparentemente se perdeu no tempo, ou encontrou seu repouso final. Resta-lhe a Zand apenas seu mestre mais recente. Aquele que lhe treinou tão bem no manejo de armas. E ali, ao longe, já se vê os primeiros sinais de Efrea, a terra do mestre Willen.

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