Escarlate #27 - Num Bar de Efrea

- Zand! Mas é Zand!? Como vai meu amigo Zand?!

Um dos clientes do pequeno bar se levanta, animado.

- Tuk! Uma rodada de cerveja pra comemorarmos a volta de Zand!

Um sujeito com a cara quadrada, cabelo penteado e uma roupa amarela. Puxa cadeira para os dois. Mais três, um deles da mesma mêsa, se levantam para receber Willen e Zand.

- Duagro, como vai? Que tem feito?

- Ora, agora meu pai é prefeito de Efrea, não sabe?

- Claro, claro... Mas já o era desde quando parti.

- Mesmo? Oh! Bem, nem faz tanto tempo assim pelo jeito, mas é sempre bom receber de volta um amigo aventureiro. Sabe como é bem: nessa vida de vocês é fácil alguém nunca mais ser visto, então é uma alegria enorme vê-lo, meu amigo.

- Igualmente, igualmente.

- Aqui, Zand! - é o homem do bar que traz uma caneca de cerveja para Willen e outra para Zand e lhes dá uns tapinhas nas costas - Estas duas são por conta da casa.

- Muito grato, Tuk.

- E o que tem feito da vida, meu amigo viajante do mundo?

- Tenho apenas tentado viver. Algumas poucas aventuras, mas a maior parte da vida foi em paz em Erans.

- Erans... - Duagro coça o queixo. - Não lembro... Onde fica?

- Ah, nem se incomode. É uma cidade pequena, pouco maior que Efrea.

Duas mesas juntas e Willen apenas observa, sentado ao lado de Zand, enquanto os outros conversam, ansiosos por novidades de além das fronteiras da pequena cidade.

- Soube que Ephes Saipu morreu, é verdade? E que Obwir, seu filho mais velho, foi quem assumiu esse ano o reinado de Surdi... Foi o que ouvi falar.

- É, também ouvi rumores a esse respeito... - Zand simplesmente comenta, sem demonstrar muito interesse na conversa.

- Pois é, espero que o pirralho tenha bom senso e saiba manter paz com seus vizinhos.

- Ah, Duagro, também não é assim. Rei Ephes fez um grande trabalho. Se havia reis que não gostavam dele, por outro lado não chegou a haver confrontos. Ele soube tratar bem sim dessas questões.

- Ian, Ian, você não entende de política. Eu que estou envolvido em política é que sei. E sei bem o que Elphes podia ter feito e deixou de fazer.

- E você acha que entende de política só porque seu pai é prefeito? Não me faça rir, Duagro!

- Estou bem mais perto da experiência prática que você, disso eu garanto. Zand, o que acha a respeito?

- Olha... Realmente não tenho acompanhado tanto de política. Nos últimos anos tenho dedicado mais atenção a outros assuntos. Mas o que sei é que tomar decisões não é simples. Só quem tem que tomar as decisões é que sabe como isso é complicado. Você toma a decisão levando muitas coisas em questão pra depois as pessoas verem só um ou dois aspectos e começarem a julgar. Uns chamarão de burrice, outros elogiarão pela razão errada... Faz parte da vida de quem exerce o poder.

- Está vendo, Ian? Zand concorda comigo! Eu é que sei como é governar, você conhece só um ou dois aspectos.

- Não seja prepotente, Duagro! Zand não quis dizer isso! Zand falou que só quem decidiu é que sabe, e não que só quem tem pai político é que sabe. São duas coisas bem distintas!

- Ian, já me cansei. Você não entende desses assuntos. Não quero mais discutir com você.

- Será que vocês dois não percebem – um homem de barba grisalha, que bebia na mesa, intervém – que este assunto aborrece nossa ilustre visita?

- Tem razão, Pleu, tem razão...

- O que te traz de volta a Efrea, meu jovem? - Pergunta o barbudo, enquanto bebe mais um gole de sua caneca.

- Vim visitar meu antigo mestre Willen.

- Zand estava de passagem nas proximidades e resolveu aparecer pra me visitar. E conhecer Tila, de quem lhe falei, mas deu azar que Tila está em Eudake vendendo meus móveis.

- É mesmo... Olha, Zand, você não conhece a Tila? Essa menina é... - Ian pára um pouco ao se dar conta de que está na presença de Willen. - Bom, é uma menina bem prendada. É muito bonita ela, você vai ver.

- Não se incomode, Zand, com nossos assuntos. Parece não gostar tanto de nos rever!

- Não, não se trata disso, nem se preocupe. É que estou fatigado da viagem, se me entendem.

- Claro, claro. - Duagro responde - Viajar cansa muito! E imagino que mesmo um aventureiro, acostumado a viajar todo o ano, não deva se acostumar totalmente a uma vida tão distante do que é pra ser.

- Zand, lembra-se de Kwi? - o homem de barba pergunta.

- Kwi... O sacerdote?

- Ele mesmo! Pois bem, ele disse que precisava ir embora e não deu maiores explicações. Simplesmente sumiu ano passado. Este ano já apareceu um novo sacerdote. É bem inexperiente e encrenqueiro, mas melhor do que nada, com certeza.

- É, isso é verdade. Outro dia, ele implicou com Ian mesmo, não foi Ian?

- Foi sim. Só porque eu entrei lá perguntando pelo sacerdote. Mas eu nem sabia que era ele! Parece tão novo! Uma criança ainda!

- É, não estranhe se precisar passar por lá e encontrar outra pessoa. O nome dele é Rob.

- Sabe que há dois meses esteve o Etaer por aqui, o que traz a bebida aqui pro bar, homem bom! Ele falou de uma criatura estranha que está atacando na estrada que vai pra Raraor... Disse até que quase foi morto por ela!

- É, já pensou que terrível! Ficaríamos um mês sem cerveja! Hahahaha!

- Comentário de mal gosto, hein Duagro.

- Ah, que é isso? Estou só brincando!

Zand apenas ouve as conversas sem participar muito. São sempre assim as grandes notícias de uma cidade pequena. Entediado, mas sem querer magoar os antigos amigos, ele apenas escuta e bebe um pouco enquanto espera o tempo passar...

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