10 out 2009

Escarlate #29 - Insônia

Submitted by bardo

No quarto, uma cama com colchão macio e a janela aberta deixa entrar uma migalha de luz. Uma escrivaninha com acessórios femininos. É o quarto de Tila, onde Zand tenta em vão dormir.

Não se lembra de quando Knova o conheceu, mas se lembra quando ela contou tudo. Ele estava em um grupo de aventureiros, viajando. Acamparam ali mesmo na Serra do Fogo. Zand subiu metade de um dos morros para ver o céu e tocar lira e cantar um pouco. Ela o ouviu e gostou.

Tempos depois os dois terminaram se vendo e desse momento Zand lembra muito bem. Não há como esquecer aquela ruiva altiva caminhando ali perto. Foi o que se pode chamar de amor à primeira vista.

Zand estava tão maravilhado que pensava ser uma ilusão, fruto de dias de viagem cansativa. Ou uma ninfa ou fada da floresta. Mas é claro que não poderia ser: ninfas e fadas não são tão... Distantes assim. Até são, mas nunca tanto quanto Knova.

Para ela fez as melhores cantigas, mesmo considerando as que vieram depois. Talvez por isso mesmo tenha desistido de seguir como bardo poucos anos depois que se afastou das Serras do Fogo, quem vai saber?

Zand se levanta e vai até a cozinha lavar o rosto em uma bacia. Sai da casa do antigo mestre e vai até seu cavalo, que descansa no quintal. Há vegetação ao redor e o barulho de natureza noturna. Ruídos discretos por todo lugar.

Ele se senta encostado em Tornado, que acorda sonolento e o olha com seus olhos castanhos.

- Meu velho amigo... Feliz é você, que não precisa se preocupar com muita coisa na vida, não é?

Ao ver a expressão calma de Zand, o cavalo mexe um pouco a cabeça e volta a fechar os olhos.

E percebe alguém o observando da casa por alguns instantes, mas não se importa. Sabe que seu mestre apenas ouviu barulho e foi ver se havia algo errado, e logo vai entender e voltar a dormir.

“Como as coisas chegaram nesse ponto? A Goo era tão bacana, tão preocupada comigo sempre... E a doida da Zoka? Ainda era barda também pra completar! Por que diabos não dava certo com ninguém? Por que é tão difícil esquecer aquela maldita dragoa? Será que Willen está certo? Com a Knova seria do mesmo jeito que foi com as outras se tivéssemos mesmo ido adiante? Pior que descobrir uma dura verdade é ter certeza de que nunca vou saber... Knova... Knovatsareinm...”

Encosta a cabeça no Tornado, usando-o como travesseiro ou encosto.

“Olhando bem, a fase mais bacana da minha vida talvez tenha sido no começo, o Besouro Fino. Ainda lembro bem daqueles tempos... O mago Pheacy, o bárbaro Oz, a sacerdotisa Glow e o guerreiro Aiff. Todos inexperientes, era bem divertido. E a Glow, muito séria e organizada, mas sempre saía quando eu chamava. Aiff veio comigo quando o grupo acabou e criamos o Besouro de Metal, mas nunca mais tive notícias daquele povo. Devia ter ido morar em Krokan com a Glow naquela época. Assim nem teria conhecido a Knova...”

“Rubi... É tão estranho encontrar alguém assim a essa altura. Em tão pouco tempo deu tudo tão certo, mas ao mesmo tempo ela exala perigo. Será que está certa também? Por um lado tem razão: Knova só me procurou quando precisou de ajuda pra recuperar seu tesouro.”

“Interessante, agora lembro... Aiff vivia falando de uma Atana, uma princesa de não sei onde que ele era gamado. Às vezes parecia que ele estava no Besouro de Metal só pra tentar fazer sucesso e quem sabe chamar a atenção dela de alguma forma. Afinal, ele era como um herói da cidade dele... Será que conseguiu? Ou quando voltou pra casa ela já havia se casado com um nobre qualquer? Vai saber... Também, depois de Knova aparecer o Besouro de Metal nunca mais foi o mesmo...”

As imagens passam em sua memória... Missões com o Besouro Fino e o Besouro de Metal. Missões em outros grupos sem nome, dos quais não fez parte, só cumpriu uma ou outra missão. No grupo da Zoka mesmo, provavelmente o grupo onde mais atuou sem fazer parte. Teve até umas duas vezes em que a Zoka estava viajando e pediu pra Zand substituí-la por lá.

Os anos passaram e o mundo foi ficando mais cinzento... Depois que virou guerreiro, Zand não fez mais parte de nenhum grupo com nome próprio e nunca participou de mais que cinco missões em um mesmo grupo. Por mais que os aventureiros dos grupos insistissem por sua permanência.

“Eu que fui burro. Devia ter seguido os conselhos de Altapion... Agora estou aqui, sem objetivo na vida, tentando descobrir se peço Rubi em casamento ou arranco sua cabeça pra dar à Knova...”

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