23 jan 2010

Escarlate #44 - Mestre e Aprendiz

Submitted by bardo

Zand vasculha as paredes em busca de um caminho até o salão principal do covil de Knova. Pouco atrás vem seu mestre Willen, levando uma tocha que ilumine seus passos e, um pouco ao menos, os de Zand.

Alguns minutos e a tocha apaga. Willen se aproxima de Zand.

- Olha – fala em voz baixa. - Bem curioso esse grupo da sua namorada, sabia?

- Por que diz isso? E fale baixo.

- Eu sei. Estou falando baixo. Você os conhece há pouco tempo, não é?

- É.

- E o que acha deles? Desse Halkond e desse Azkelph?

- Olha, Halkond me parece meio irritado sempre. É como se tivesse ciúmes da Ruby.

“Foi o que também percebi.”

- Não só isso. Algo nele não me cheira bem... Me parece um sujeito muito estranho.

- O que acha exatamente?

- Não acho exatamente nada. Só que devemos ficar de olhos bem abertos nele. Algo me diz que ele está tramando alguma coisa.

Zand baixa a cabeça ao lembrar o plano de matar Knova...

“Não despreze os concelhos de seu mestre, aventureiro... O grupo de sua namorada – como diz seu mestre – não parece um grupo exatamente honesto.”

“Eve, eu sei... Eu sei que posso estar correndo riscos, mas os dois caminhos são arriscados e eu escolhi um. Quando estamos diante de dois caminhos perigosos, não adianta se queixar dos perigos. Só escolher um e contar com a sorte, torcendo para ter sido o caminho mais acertado.”

“Nisso você tem razão.”

- Podemos prosseguir agora? - Pergunta ao seu mestre.

- Por gentileza...

Zand volta a procurar passagens nas paredes.

“Enterrar de vez esse dragão vai te fazer bem.”

“Espero que faça.”

“Pelo que entendi é algo muito doloroso e antigo, aventureiro, esse problema que enfrenta. Melhor mesmo encerrar de uma vez. E te admiro muito.”

“Por quê? Você que sempre foi uma guerreira admirável.”

“Porque sinto perfeitamente a dor que você sente neste exato momento. Sua decisão é difícil, Zand. Mas mesmo assim você segue nesse caminho que escolheu, mesmo sem ter certeza se é ou não o caminho certo, se é mesmo capaz de encarar o dragão de novo, desta vez na posição de inimigo.”

“Obrigado.”

Na escuridão da caverna, somente Eve e Zand sabem que lágrimas passeiam por seu rosto. As lágrimas e o diálogo telepático se passam sem serem notados por Willen.

“Sabe, Zand... Desde que essa tragédia aconteceu em minha vida e eu fui habitar em minha arma, muita coisa mudou. Acho que amadureci muito. Foi um castigo merecido, eu diria...”

“Como assim, Eve?”

Zand continua e o caminho começa a se inclinar para cima, mas uma inclinação pequena, menos de trinta graus. Ele segue, atento, seguido a alguns passos por seu mestre.

“Nem lembro quanto tempo faz. Deve fazer meio século, presumo... Eu era obcecada demais. Fria demais. E desde que essa maldição me ocorreu, sou obrigada a pensar e sentir mais. Sou obrigada a perceber com clareza o que se passa no coração de quem empunha essa espada. Você é um guerreiro valoroso e tem um coração bom. É o que digo.”

“Obrigado, mais uma vez.”

“Deve estar se perguntando por qual razão estou te falando isso... Nunca comentei essas coisas sobre mim própria com ninguém, mas é algo que eu sempre quis dizer. E sinto como você é uma pessoa confiável.”

“Muito obrigado, Eve. Fico lisongeado.”

“Essa batalha contra o dragão será difícil. Mais pela situação em que você se encontra do que pelo dragão propriamente. Mas não se preocupe, eu estou do seu lado.”

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