4 dez 2010

Escarlate II #31 - A Lira de Knova

Submitted by bardo

“Aceite esta lembrança como uma despedida. Foi o que melhor consegui construir nesses últimos anos, especialmente para você. Que te ajude a transportar seu talento da melhor forma, que consiga fazer cantigas ainda mais encantadoras. Para isso que fiz. Espero que me esqueça para conseguir viver sua vida de maneira adequada, mas que se lembre às vezes de mim. Nem que seja numa noite de Lua. Acho que querer isso é um sinal de fraqueza... Mas tudo bem, esta é uma despedida. Agora posso reconhecer, já que você nunca mais vai aparecer aqui para me ver e não terei que te matar por você ter descoberto isso em mim."

Zand abre os olhos. O corpo dolorido e um desconforto que só quem já dormiu com armadura sabe calcular.

Já amanheceu e lá está ele deitado no chão, perto das árvores do quintal daquela mansão em Gurian. A lira está ali em seus braços, feita de pedras preciosas das mais diversas, em tons de negro e azul, com algumas pedras de outras cores espalhadas, como se tivessem sido mescladas magicamente, muito mais do que coladas. A chapa curvada com um metal que traz o brilho da Esmeralda sustenta as oito cordas de ouro.

Um instrumento feito de pedras, mas não é tão pesado quanto parece. A estrutura central desenha a “ferradura” de sustentação da lira, e faz duas pequenas cuias, acompanhando as laterais da estrutura, como se ensaiassem o desenho de uma caixa acústica em torno das cordas, mas desistissem antes de chegarem à altura dessas mesmas cordas.

Zand se senta, ainda mais admirado agora que há luz e ele pode ver os detalhes da obra de arte. Na chapa metálica que sustenta as cordas, gravado ele lê seu próprio nome: ZAND.

Desliza os dedos por ela e um insight. Ao soar das primeiras notas, que ecoam no lugar como sons quase divinos, com intensidade de volume muito maior do que promete a engenharia da lira, ele simplesmente sabe que aquela lira era o presente que Knova lhe fizera. O que mais seria? E instintivamente ele sente o quanto de poder há naquele instrumento que personifica um tão estranho amor.

E ele toca uma melodia melancólica e vê o passado. Ele está ali na Serra do Fogo, com Knova, conversando no sofá à luz de velas. Deitado sobre o colo de Knova, que se limitava a descansar sua mão sobre seus cabelos.

- Você vai mesmo? - Ela pergunta, de modo quase áspero.

- Preciso ir. - Zand responde, mas não o Zand maduro de hoje. O bardo Zand. - Estou aqui há mais de um mês.

- Então... - Ela pára.

- É muito bom estar com você. Quero ficar com você pra sempre, mas preciso resolver algumas coisas.

- Vai me deixar.

- Não!

- Você... - Ela pára mais uma vez. É como se quisesse dizer algo intenso, profundo, mas seu orgulho draconiano não permitiam.

Mais lágrimas fogem dos olhos de Zand, do Zand que toca lira vestindo uma armadura de escamas, de escamas de Knova.

Instintivamente, instantaneamente ele sabe do que a lira é capaz. A lira foi feita para ele próprio. Ele toca mais uma música. Uma música calma e estranha, como quem ainda não encontrou o ritmo e está experimentando que ritmo usar, que escalas, que frases... Mas ele sabe exatamente o que está fazendo.

De repente, Zand abre os olhos com um brilho diferente.

- Awra!

Naquele instante aparece Breig, vindo de trás da mansão. Atraídos pela música ou por instinto, Breig e Viex vieram, e trouxeram o general, que estava prestes a partir.

- O que é isso, Tzarend?

- Um presente.

- É... Fabulosa!

- Nossa! - É Viex quem vem agora. - Nunca vi uma lira assim! Corrigindo... Nunca ouvi falar de uma lira assim! Quem fez?

- Não importa.

- Claro que importa! Quem fez... Zand... - Viex lê o nome gravado na lira. - Eu me lembro desse nome... Essa lira é de... Então você é mesmo aquela pessoa... E essa armadura... Oh, puxa!

- Eu sei para onde eles foram. Vamos pegá-los!

- Claro que vamos! Mas antes precisamos tomar café, meu amigo. Então, como suspeitei, você é o amigo do dragão Knova, que foi traído pelos Raxx. Só não sabia que era o bardo Zand. Me lembro de ter ouvido seu nome algumas vezes. Vamos, colega, vamos comer. A hospedaria daqui de Gurian oferece um bom pão à Jericó. E a viagem vai ser longa.

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