Jasmim #14 - A Capela

Cabelos dourados enrolados e firmes por dois hashis. Uma camisa azul escura e braços sustentando uma caixa de madeira. Entre a camisa e o cabelo, um rosto com expressão decidida, olhando o cemitério. Barulhos estranhos que vêm de dentro não a assustam.

Os portões estão abertos, tudo está bastante iluminado. Tênis cinza caminham pela estrada que leva à capela. São os pés firmes de Jasmim. Bac! Seu lado direito. Um jarro de flores está no chão, próximo a um túmulo. Jasmim continua.

Bac, bac, bac... Ao longe, perto do muro, vasos caem sozinhos de cima das criptas. Parece que alguém não está feliz com a visita repentina.

Ainda está à metade do caminho, mas Jasmim coloca a caixa no chão e a abre. Tão logo tem a morningstar nas mãos, seus olhos começam a perceber formas. O cemitério está cheio de pessoas agora. Crianças, velhos, homens, mulheres... Caminhando por todo o lugar. Alguns com expressão de raiva no rosto.

"Ver o que não quer ser visto..." As palavras de Klaitu vêm à sua mente.

Ao seu redor, aos poucos, essas pessoas param e a observam atentamente. Perceberam que agora são vistos. Jasmim simplesmente prossegue, de olho nesses estranhos moradores. De sua testa algumas gotas de suor já começam a correr. Não consegue esconder a preocupação. Fantasmas? Não é isso. É que é gente demais! "Por quê que eu fui pegar a morningstar?" Seus passos se apressam e ela ainda ouve risos e conversas.

Jasmim corre. A caixa ficou para trás no chão, vazia. Em sua frente, a capela aberta.

Medo e passos largos. Enfim, consegue entrar. Não há ninguém dentro da capela além dela própria. Ninguém mais, vivo ou morto.

Seus olhos procuram a parede certa, enquanto caminha ainda tensa e ofegante. Por um instante sua vista fica escura, mas logo volta: tem que continuar.

- Não!

Um quadrado perfeito na parede é o buraco no lugar exato do seu sonho. No chão, ali perto, um baú jogado, quebrado, vazio.

Milhões de coisas passam na sua cabeça. "De novo." "Será que você consegue?" "Tem gente demais" Sua vista fica escura novamente e Jasmim se apoia na parede para respirar. Pela janela, uma multidão olhando para ela de maneira curiosa e penetrante, fazendo com que se sinta nua diante daqueles tantos olhos. É a última imagem antes que fique tudo escuro de vez...


 

Jasmim abre os olhos. Tudo está claro demais. Muita luz. Suas pupilas vão se acostumando...

- Oi! Você está bem? - Essa voz soa familiar. A imagem finalmente começa a se tornar inteligível.

- Pietro...

- Jasmim! Você acordou?! - Vira o rosto para ver aqueles olhos brilhantes e úmidos. Não precisaria se virar para reconhecê-la.

- Anna... Onde estou?

- De volta onde nos conhecemos! - Pietro se intromete. - No Hospital Santa Brígida!

- Anna, e o antiquário?

Anna responde com um sorriso terno e mais uma lágrima corre de seus olhos verdes.

- Jasmim... - Ela abraça a paciente, deixando-a sem ação. Depois se afasta, enxugando o rosto, e começa a explicar. - Desculpa... Fiquei muito preocupada com você, faz mais isso não, tá? Fui almoçar e você nem tinha chegado e...

- Se quiser, eu continuo! - Pietro interrompe e Anna faz sinal para que ele conte o resto, enquanto vai para o sofá enxugando as novas lágrimas.

- É, Jasmim! Eu resolvi ver você hoje à tarde e parece que eu tava adivinhando mesmo, olha só... Você precisava ver... Sua irmã estava aos prantos. "Menina, o que houve?" "A Jasmim. Foi pro cemitério..." "Fazer o quê?" Eu perguntei. Quase que pergunto se você era gótica, vê só... Não, porque você é bem calada, né? Mas você não se veste só de preto, então acho que não é não... Sabe, tinha uma paciente que é gótica. Já tentou se matar três vezes a doida! Ela tem um piercing bem aqui e o cabelo branco. É, branco mesmo como albino, acho que descoloriu...

Jasmim se senta. Sente-se cansada, mas parece estar bem, de qualquer forma. A caixa está numa mesinha próximo à porta.

- Ela tem uma cicatriz na barriga de quando tentou se matar com uma faca, pode? De outra vez...

- Cala a boca, por favor! - Ela se levanta.

- Jasmim... - É Anna, já de pé também. - Não fala assim, ele salvou sua vida! Você estava jogada no chão lá na capela do cemitério quando ele te achou! Passou meia hora te procurando lá e só te encontrou três e meia da tarde, e te trouxe pra cá...

Jasmim olha para os dois, já sem a expressão levemente irritada de agora há pouco.

- Que horas?

- São oito e meia.

- Já vou.

- Ei, espera o doutor, minha filha! E eu te levo! Vou sair dez horas. Você devia aproveitar a comida daqui, é ótima!

- Sério, já vou. - E caminha devagar em direção à porta do quarto. Pega a caixa e confere o peso.

- Ei, Pietro, será que pode me dar carona? - Anna pergunta.

- Claro, moça! Só dez horas, tudo bem?

- Tudo bem.

Na porta, Jasmim para por alguns segundos e se faz silêncio. Sua intenção era de agradecer ao Pietro, mas por receio de que o "obrigado" termine lhe parecendo outra coisa, suspira e se vai.

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