Jasmim #17 - Adeus, Volgogrado

5 jul 2008

São quase sete horas da noite. Rionskaya ulitsa, 37, Volgogrado. No primeiro andar, a luz da cozinha acesa ilumina lágrimas que fogem de dois olhos verdes. É Anna, que morde os lábios triste vendo Jasmim servir a mesa como se fosse tudo normal.

- Você vai mesmo embora amanhã?

- Vou sim.

- Jasmim...

Anna abaixa a cabeça chorando. É uma mistura de saudades com a percepção de que esta é uma despedida. E Anna fica pensando como Jasmim não chamou mais ninguém... Será que ela não tem mais ninguém? Amigos, parentes...

A mão de Jasmim toca a cabeça de Anna, sem jeito.

- Calma, vai ficar tudo bem.

Os olhos cheios de lágrimas se erguem um pouco. Logo Anna está abraçada a Jasmim, ainda chorando.

Jasmim, surpresa, aproxima devagar as mãos dos cabelos de Anna, acariciando-os de leve. No que se lembra de Pietro no hospital outro dia e um leve sorriso nasce nos seus lábios. "Irmã..." Será que não está, sem querer, tentando fazer da Anna a irmã que nunca teve?

- Podemos jantar, Anna? - Ela fala, de modo suave.


 

- Nossa, Jasmim, você cozinha bem! E faz tudo sozinha!

De Jasmim, um movimento discreto dos lábios quase forma um sorriso.

- O que foi? Está preocupada com a viagem? Vai não então... Fica aqui e...

- Queria te pedir um favor.

- Um favor?

- Anna, você é a única pessoa em que confio hoje. Além do mais, pelo que você tem reclamado da sua casa... Bom, você não precisa fazer isso se não quiser. É sobre o antiquário. Vou te deixar as chaves e, se quiser, você pode morar aqui enquanto eu estou fora.

- Jasmim... - As lágrimas que tinham dado trégua voltam aos olhos de Anna.

- Mas é só se você quiser, você não precisa...

- Você é tão legal!

- ...mas claro, independente disso, você vai ter que cuidar dos papéis da empresa.

- Mas eu não sei fazer isso.

- É intuitivo.

- Sim, mas...

- Amanhã te ensino.

- Tudo bem... - Anna enxuga o rosto e, com novas lágrimas, fala após um tempo. - Sabe, Jasmim? Eu sempre soube...

Jasmim responde com um olhar de estranheza.

- Você é tão exigente, tão rígida, mas eu sei que é porque você quer tudo funcionando direito. Eu sempre soube que por trás dessa pessoa preocupada você era uma pessoa muito legal, incrível e... Calma, sua boba, não precisa fazer essa cara! Não tou estou dando em cima de você não! Ah, Jasmim, vou sentir tanto a sua falta... Posso te dar um abraço?


 

Já é meio da tarde. Da janela do ônibus, Jasmim vê Anna e Pietro acenando. Não é do jeito que ela queria, preferia simplesmente ir embora. Viria de táxi e partiria, simples assim. Mas Anna ligou para Pietro e pediu esse favor...

Também não queria ter que fechar o antiquário mais cedo, mas Anna quis se despedir e Jasmim preferiu deixar, mas não sem dar um sermão sobre o cumprimento de horários, na esperança de que tudo funcione de maneira adequada enquanto estiver fora.

O ônibus parte e ela se lembra da noite anterior. "Cuide do antiquário como se fosse seu."

Sua bagagem está em duas bolsas. Uma delas leva a morningstar. Uma bolsa larga, difícil de se encontrar à venda mas, como sempre, Jasmim programara tudo com antecedência.

O ônibus deixa Volgogrado e todo o seu mundo ali fica, pouco a pouco, para trás. No céu, o entardecer. O Sol nasce na sua camisa azul, presente surpresa de Anna e Pietro.

Seu coração espera ansioso pelo que o futuro lhe reserva. Ansioso, mas com toda a paciência do mundo.

Jasmim saca um livro de Stephen King. O ônibus leva poucas pessoas. Ao alcance da mão, uma bolsa que ela mesma trouxe. Uma bolsa de mais de um metro de largura, que descansa na poltrona ao lado.

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