Jasmim #22 - Salvador

9 ago 2008

Os primeiros raios do Sol começam a diluir o que havia de noite. No centro da pequena cidade de Sunak, na Turquia, as árvores na praça são iluminadas aos poucos. Uma praça pequena e sem gente. E ali, logo em frente, um templo abandonado. Ou quase isso...

Entre escombros, uma mulher se levanta. Seu corpo tão bonito coberto por farrapos, poeira e hematomas. Ofegante, com seu longo cabelo loiro quase castanho a essa altura, ainda segura furiosa sua única companheira nesta batalha: um bastão que termina em uma bola de aço com pontas. Uma arma conhecida como Morningstar.

- Maldito Klaitu!

Mas Klaitu não é o nome daquele monstro de seis metros de altura feito apenas de pedra com quem ela luta desde quando ainda era noite. Nem se sabe se seu adversário tem mesmo um nome. Independente disso, ele agora se aproxima em investida. Jasmim simplesmente pula e coloca o Morningstar firme na frente, posicionando-se para receber melhor o golpe inevitável.

Estraçalha-se o portão principal num estrondo. É Jasmim que é arremessada de dentro do templo e cai de mal jeito mais uma vez, rolando no chão pela rua até a calçada.

- Maldito Klaitu...


 

Jasmim caminha diante do templo à noite, guiada por aquela estranha voz a que já se acostumou. Faz frio, mas ela está bem agasalhada. A voz é quase aguda, porém intensa. Fala de algo importante que o templo guarda, que a ajudará em sua missão. É a voz de Klaitu no sonho de Jasmim. Esse que tem aparecido cada vez mais em seus sonhos, mas sem mostrar nunca o rosto. Todas essas buscas sempre começam assim. Klaitu lhe diz como chegar onde precisa, desde que o mundo virou esse caos... Mas há uma parte em seu sonho que Jasmim esqueceu hoje. Nada muito importante... Apenas a parte em que Klaitu fala como derrotar a tal criatura de pedra.

Seu corpo todo dói, mas Jasmim não vai desistir agora. Sua mente analítica procura um ponto fraco na maldita criatura há mais de três horas. Já tentou de tudo: nenhum sucesso até o momento.

Sente a aproximação de um cavalo, ainda distante. Enquanto isso, lá dentro do templo continua o barulho de passos que lembra algo como uma montanha caminhando.

Ergue a cabeça e vê as árvores da praça. Já se pode ver a brita espalhada e os bancos verdes enferrujados com mais clareza a essa hora da manhã. A Morningstar é colocado de pé e, com a mão direita, Jasmim a utiliza como apoio para se erguer também. Suas pernas sem jeito procuram uma base firme, mas não tremem. Todo o corpo dói.

Um cavaleiro se aproxima pelo outro lado da praça. Vem contornando a calçada rapidamente, parando entre Jasmim e o templo. Desce do cavalo em uma armadura de samurai e com um conjunto de espadas.

- Não tema, senhorita, eu vim salvá-la!

Jasmim aproveita o raro momento distante do monstro para se certificar de que nenhuma daquelas tantas dores se deve a ossos quebrados.

Talvez em outra ocasião ela ficasse com raiva desse estranho cavaleiro com tanta prepotência. Não que seja de falar muito, mesmo em discussões. Mas hoje simplesmente olha o cavaleiro, que já caminha em direção ao templo, com desdém e um leve sorriso irônico no rosto, quase sádico. "Salvador..."

Mal empunha o morningstar com as duas mãos, já se preparando para mais uma tentativa, um estrondo vem de lá de dentro. O tal cavaleiro voa quebrando uma janela e subindo pelo menos oito metros antes de cair sobre um dos poucos bancos da praça. Ficou quase sem armadura atingido por uma única pancada e arremessado como se fosse um boneco...

- É isso!

Com um brilho nos olhos, Jasmim corre decidida para dentro do templo. Desvia de um soco da criatura e continua em direção à única escada que restou.

Sobe a saltos largos e vai em direção à segunda sala, onde tem uma grande escrivaninha, umas estantes próximas à janela e cadeiras espalhadas pela sala.

Em uma das estantes, Jasmim encontra um baú servindo de apoio lateral para os livros de uma enciclopédia. Corre com ele até a escrivaninha.

Uma parede cai. É o monstro, que tentou segui-la.

Do baú, Jasmim pega uma pequena estatueta. Uma miniatura do mesmo monstro que acabou de chegar.

Com passos firmes e ar triunfante, aproxima-se do monstro com a miniatura na mão. Enquanto o monstro se prepara para um golpe com o braço esquerdo, Jasmim arranca o braço esquerdo da estatueta. O braço esquerdo do monstro cai.

Sob seu rosto frio, a alegria e o alívio de essa demorada missão estar chegando ao fim. E Jasmim arranca o outro braço, as pernas e a cabeça. O monstro se desfaz como se nunca tivesse passado de um amontoado de pedras. O tronco da estatueta cai no chão.

Jasmim entra numa sala pouco iluminada e lá encontra, encostada num canto, uma roupa própria para batalhas, feita de couro e algumas penas mescladas, quase como escamas.

Jasmim sorri e se vai com o novo artefato, deixando a praça vazia, o templo quase todo destruído e um cavalo que ainda não se deu conta de que agora é um animal livre...

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