
- Não encontrei movimentações por lá, apesar de sentir que ainda há bastante maldade em suas ruas. - Gloanloi expõe o resultado de sua análise.
Estão reunidos na casa do prefeito de Zax, que se tornou o quartel general do exército de Wimow. A família do prefeito se incomoda com a movimentação, mas não sai e, no fundo, se sente mais segura com tantos soldados por perto.
- Assim sendo, devíamos seguir para Surdi.
- Mas você acabou de dizer que há maldade lá. Não podemos deixar o inimigo enraizado aqui em Wimow. - Ondité protesta.
- Entenda que a situação em outras cidades está muito mais grave do que lá em Wogyau. Não faz sentido irmos lá.
- Não posso deixar o território de Wimow sem que esteja em segurança.
- Estamos aqui decidindo quem vai morrer, dentre os inocentes. É a vida de muitos contra a vida de poucos.
- Não importa, não agora. Você mesmo disse que sentiu presença dos assassinos pelas ruas.
- Mas não há movimentação.
- Eles podem estar arquitetando alguma coisa.
- Eve?
- Quê? - Desperta de uma rápida distração, ela encara o capitão e o paladino por um momento. - Tanto faz, desde que a gente saia logo daqui e vá fazer alguma coisa. Ficar aqui parado não resolve nada.
- Glaz?
- Permissão para falar, capitão?
- Concedida.
- Acabamos de receber informantes de Ey Vudeon.
- Qual a mensagem?
- Para permanecermos em Zax. Um grupo de reforço está vindo.
- Zand vem com eles? - Eve pergunta, de súbito.
- Não há mais informações, senhorita.
- Tudo bem, Glaz. Previsão para a chegada?
- Não foi informado, capitão. Foi informado apenas que a movimentação deles será mais lenta do que o habitual.
- Entendido. Algo mais?
- Não, senhor.
- Dispensado. - Ondité fala e se volta para os outros dois. - Pelo visto, não temos o que discutir. Temos ordens diretas para continuarmos aqui.
- Não aguento mais isso. Ondité, gostaria de treinar pra passar o tempo. Ao menos isso. Pode me dar um grupo de soldados?
- Que tipo de treinamento?
- Com armas não letais, ora! Espadas de madeira, ou reais. Não importa. Preciso me ocupar e praticar mais.
- Tudo bem. Vou arrumar dez homens, mas não os incapacite: já temos soldados de menos para lidar ainda com fogo amigo.
- É claro.
- Quanto a mim, já vou indo.
- Aonde, Gloanloi?
- Ora, essa viagem vai demorar muito e temos muito poucas informações a esse respeito. Vou procurar os reforços e ver o que posso descobrir.
- É uma boa ideia.
- Eles não dizem do que se trata. Após muita insistência, contaram sob condição de eu revelar apenas a vocês dois. E nós três não revelarmos a mais ninguém.
- Tudo bem, e quais são os reforços?
- Homens de Klavorini.
- Como!?
- Vieram desfazer a aliança com os clãs e trazem um equipamento que pode anunciar aos seus conterrâneos sobre a decisão.
- Isso é fabuloso! A guerra pode terminar rápido, já que os bárbaros de lá são o maior número entre eles!
- E Zand? - Eve pergunta, enxugando a testa com uma toalha.
- Está vindo com eles, e também perguntou por você.
- Quanto tempo ainda eles levarão?
- Alguns dias, com certeza. Talvez uma semana, talvez até mais do que isso.
- Então vamos esperar.
- Ondité. - Eve fala, logo após se levantar. - Preciso de outro grupo. Os que você me designou não têm mais forças.
- Vou providenciar, daqui a alguns instantes. - Ondité responde, disfarçando a surpresa.
- Pra quê tanto treino?
- Esse corpo... É muito fraco. Você viu o tipo de arma que os homens de Klavorini usam? Não descansarei até conseguir usar uma daquelas com a mesma facilidade com que uso um sabre.
Mal diz isso, já sai da sala, deixando os dois pensativos.
- Zand é um homem de sorte...
- Como?! - Gloanloi pergunta.
- Se ela for tão vigorosa na cama como é na guerra...
- Capitão?
- Já chegaram?
- Ainda não, só ele.
- Ondité?
- Zand! Sejam bem-vindos.
- Resolvi vir na frente. Os outros devem chegar dentro de três horas.
- Tudo bem. Sente-se.
- Obrigado.
- Ela foi tomar banho.
- Como!?
- Eve! Você veio à sua procura, não é?
- …
- Estava lutando em treino – é só o que tem feito – quando um dos sentinelas veio anunciar a aproximação do grupo de vocês. Ela deve chegar logo.
- Tá, o que aconteceu exatamente com vocês três? A divisão dos soldados e os ataques contra os aliados...
- Havia um mago chamado Xaigrir. Não sei bem como, ele conseguia mudar sua própria aparência e se passou por Eve. Conseguimos derrotá-los com poucas perdas. Isso foi em Efri. Quanto aos outros dois grupos, foram liderados um por Eve e o outro por Gloanloi. Também encontraram magos, mas com especialidades diferentes. Gloanloi enfrentou um ilusionista que...
- Zand.
- Oi, Eve.
- Não quero atrapalhar. Continuem.
Antes que um dos dois fale qualquer coisa, ela sai da sala.
- Bom, continuando: Gloanloi encontrou um mago que foi capaz de criar uma miragem no meio da estrada, fazendo com que pensassem estar chegando a Bruaz. Felizmente, ele percebeu a artimanha e...
“Eve...”
- Então esta é a arma? Vocês não fazem ideia de como eu estava curioso a seu respeito. - Gloanloi fala, admirado.
- Certo, qual o plano agora?
- Vamos até Wiogee, se ainda não foi tomada pelos clãs, hã? Se não, iremos a Surdi. O destino final é Noak, e assim desfazemos suas forças.
- Certo, posso voar até lá e ver como está a situação, Plórius.
- Estava contando com isso.
- Então eu volto e o grupo parte para Wiogee ou Surdi.
- Tudo bem, todo o grupo vai descansar, enquanto você vai. Ao seu retorno, partiremos. Twisk?
- Já sabe que por mim, tudo bem.
- Combinado. Vou indo então.
Assim aconteceu. As forças que rumavam a Wiogee eram justamente as que foram derrotadas na missão de Wogyau. A mudança nos planos exigiu um novo grupo partindo no mesmo trajeto, dessa vez cruzando Surdi, mais longe de Wimow. Para a própria segurança dos clãs, passaram por cidades já tomadas. Passavam pela pequena cidade de Chavya quando voram alcançados.
Primeiro, por Gloanloi, Viex, Eve, Zand, Ondité e algumas dezenas de homens. O objetivo: atrasá-los por algumas horas até a aproximação do outro grupo.
Quando aquela melodia soou, havia algumas centenas de bárbaros na cidade. A luta, até aquele ponto, havia sido conduzida de modo a poupar o máximo de vidas possível. Alguns soldados morreram, dos dois lados. Mas quando a melodia soou, os homens de Klavorini simplesmente congelaram. Alguns se agruparam em equipes de conterrâneos, fazendo formação defensiva e esperando. Alguns entraram em batalha contra os antigos aliados. Outros procuravam a origem do som.
Naquele instante todos sabiam – estava escrito nas terras e no ar – que a guerra havia terminado.
- Já faz alguns meses desde que nos vimos, Twisk.
- Sim, majestade.
- Graças a sua colaboração, a guerra terminou. Essa mesma colaboração foi o que levou a guerra ao início, portanto acho que seus atos apenas repararam o erro. De qualquer forma, somo-lhe gratos.
- Gratos somos nós pela compreensão. Agora finalmente podemos voltar às nossas terras em paz.
- Não sem antes se hospedar em meu palácio por uma semana, lembra?
- Claro, certamente.
- Pois é, meus amigos. Estamos passando por momentos difíceis. Fuzeddin está pronto para receber o reino de sua família. Conversamos muito nesses meses e creio que fará um bom trabalho. Tudo terá que ser reconstruído por lá. Não tenho dúvida de que Woate ajudará nesse sentido.
- Certamente, majestade.
- Como sabemos, não faz muitos anos que Obwir assumiu o reino de seu pai. E nos últimos meses, a princesa Cyel teve que assumir prematuramente o reino de toda Wiogee.
~ Quanto a mim, como veem, já tenho idade bastante avançada e não devo durar muito tempo. Não tenho herdeiros diretos, logo a família de minha esposa herdará o reino de Wimow. Para bem ou para mal? Não há como prever. Só prevejo que os tempos estão mudando.
~ Quanto a Awra, sempre respeitei sua opção por um regime descentralizado, entretanto isso se mostrou um erro dados os últimos eventos. Por isso, gostaria que fosse instituído ali um novo tipo de governo.
~ Teria prazer em receber Awra como parte de Wimow, não houvesse tantas preocupações já em nossas terras nesses momentos difíceis. E a distância dificulta a gestão, de certa forma. Por isso – e para que o nome de Awra não caia no esquecimento como ocorreu com nossos vizinhos em Klavorini -, cheguei à conclusão de que eles precisam de regentes fortes, de carisma, que possam ser respeitados, tenham sabedoria para conduzir aquelas terras e que, principalmente, sejam de minha confiança, já que estamos tão pertos. Pensei em dois nomes para essa nobre e difícil missão.
O salão do palácio de Ey Vudeon é tomado por silêncio. Todos se olham, tentando adivinhar os pensamentos do rei. Muitos chegam perto.
- Estou numa posição difícil. Não sei se cabe a mim decidir por Awra, mas minha decisão também leva em conta os serviços prestados àquele povo. Minha dúvida é entre Eve ou Zand.
Alguns risos discretos pela sala só aumentam o constrangimento dos dois. Após vê-los um tempo sem ação, o rei conclui.
- Claro que não tenho objeção se forem os dois juntos a conduzir aquelas terras. Pelo contrário, teria duas pessoas de minha confiança e respeito por lá. O que pensam disso?
Sem saber o que dizer e o que não dizer, encurralados, os dois apenas gesticulam em confirmação.
- Então que haja festa! E tem que ser logo, afinal nossos convidados de Klavorini não podem perder essa comemoração!
Em meio a falas e risos de euforia que preenchem o salão, Eve e Zand apenas se olham e sorriem, vencidos, mas no fundo felizes por isso.