Estão Sabotando o Computador para Todos

O projeto Computador para Todos foi lançado pelo Governo Federal como um projeto de Inclusão Digital que tenta facilitar a aquisição de computadores por famílias de baixa renda.

O projeto inicial exige - por méritos - uso de GNU/Linux, ainda assim seguindo alguns critérios. Agora, a proposta de dual boot pode levar tudo a perder.

Computador para Todos

O projeto foi pensado de modo a definir hardware, software e serviços mínimos para o fabricante que desejar fazer parte do projeto.

Assim, há toda uma definição de hardware mínimo e de conjuntos de software não por marca, mas por categorias (ver adiante). Também é necessário que a empresa ofereça suporte em português para o software em questão.

A vantagem do Computador para Todos envolve redução de impostos e concessão de financiamento. Uma outra restrição para o projeto é que o computador deve ser vendido a até R$ 1.400,00.

Por que GNU/Linux

Ficou definido pelo ITI que o Computador para Todos deveria apresentar software das seguintes categorias:

  • Sistema Operacional;
  • Editor de texto;
  • Planilha eletrônica;
  • Ferramenta de presentação;
  • Navegador Web;
  • Anti-vírus;
  • Firewall pessoal;
  • Cliente e-mail;
  • Compactador/descompactador;
  • Gerenciador de download;
  • Gerenciador de FTP;
  • Atualização automática;
  • Assinador de certificados;
  • Discador;
  • Visualizador de imagens;
  • Leitor de arquivos PDF;
  • Calculadora;
  • Cliente-chat;
  • Mensageiro instantâneo;
  • Video-conferência;
  • Reprodutor multimídia;
  • Jogos;
  • Editor de áudio;
  • Editor de imagem;
  • Editor de desenho;
  • Editor de HTML;
  • Gravador de CD.

Não é difícil ver que tal conjunto de programas sendo obtido como software proprietário encareceria demais o produto (só o conjunto de software ultrapassaria - e muito - o teto de R$ 1.400,00).

Foi por isso que distribuições GNU/Linux entraram no projeto e a Microsoft não. Porque conseguiram atender perfeitamente aos requisitos a um custo acessível para os fabricantes de computadores (que contratam distribuições GNU/Linux em estilo OEM). Mesmo incluindo suporte, foi possível entrarn no projeto. E as ferramentas têm sim qualidade. O OpenOffice/BrOffice é um dos exemplos de ótimas ferramentas distribuídas como Software Livre.

Além desse aspecto técnico, temos um outro ponto. Considere que:

  • a Microsoft detém alguns monopólios de mercado (é até ilegal isso, mas detém): Sistema Operacional, Suíte de Escritório...
  • o lucro do Windows para a Microsoft é de cerca de 85%, um valor absurdo fruto do monopólio;
  • todos esses benefícios do Governo Federal não vêm de graça. Têm um custo para nós: é nosso dinheiro.

Então, vale a pena tirar impostos de uma empresa que detém monopólio do mercado e 85% do valor obtido vai para realimentar esse ciclo de dependência?

Com GNU/Linux, várias empresas podem oferecer o conjunto de aplicativos e o suporte a um preço justo. Além disso, não nos tornamos dependentes de tais empresas. Se por acaso a empresa que faz a distribuição que você usa chegar a falir, qualquer empresa do ramo terá condições técnicas e legais para prestar serviço equivalente.

Diga-se de passagem: o fato de o computador vir com GNU/Linux não impede o comprador de pagar por uma licença de Windows e instalá-la, caso seja sua vontade.

E assim, o Computador para todos se tornou realidade.

Pirataria

Segundo pesquisa divulgada pela Positivo, 75% dos compradores de computador pelo projeto Computador para todos instalam Windows em até 3 meses.

Essa pesquisa curiosamente confirma o que o mercado achava que iria acontecer e não traz muita informação a respeito (pelo menos, eu não vi).

Mas deixemos isso de lado e perguntemos: "Ah, tá, computador com GNU/Linux o pessoal instala software pirata por cima, mas até que ponto isso não acontece com Windows?"

Pergunto isso por uma razão simples: muitos computadores têm vindo com uma versão altamente limitada do Windows, que permite apenas 3 janelas abertas de um mesmo programa e apenas 3 programas abertos ao mesmo tempo, dentre outras limitações. Quantos compradores instalam um Windows sem limitação, mas ilegal, no lugar desse? E quantos instalam um MS Office irregular? De quem é a culpa nesse caso? De os computadores não já virem todos com Windows completo e Office?

O problema da cópia ilegal é a cultura que impera hoje. As pessoas não acham suficientemente errado copiar um software a ponto de se privarem de seu uso. Mas claro! Uma mudança de GNU/Linux para Windows é bem mais explícita que uma de Windows Starter para Professional! Então, que se apontem os indicadores para o pinguím!

No caso do Computador para todos, faltou treinamento dos vendedores. Em uma loja aqui em Maceió, o vendedor sequer sabia o que era "o Linux" que vinha, o que oferecia exatamente e que havia suporte incluído. Isso somado à cultura da ilegalidade termina gerando frases de vendedor do tipo "Você compra e depois instala o Windows por cima, de graça".

Esses pontos os fabricantes não querem perceber, pois não lhes trazem vantagens...

O Golpe do Dual Boot

Veja bem: o Computador para Todos é um aparelho informático completo com tudo o que é necessário para usos comuns de um computador: ferramentas de escritório, suporte a impressora, navegador web... Tudo perfeitamente configurado para funcionar naquela máquina, atendendo ao requisito de aplicativos que é estabelecido.

Agora os fabricantes estão querendo fornecer computadores do projeto com Windows instalado adicionalmente, um golpe trapaceiro sem limites. Por quê?

  1. Um sistema desnecessário para o funcionamento do computador, já que viria como uma alternativa pré-instalada ao GNU/Linux. Mais, com um custo adicional para isso;
  2. Não precisariam se preocupar em atender aos requisitos técnicos quanto a softwares necessários para Windows, pois aqueles softwares já estão no GNU/Linux. Ou seja, uma trapaça pra colocar o Windows irregular (sem os softwares necessários) pegando carona no Linux.
  3. O Computador para Todos não é um projeto visando os fabricantes, mas um projeto de Inclusão Digital. E Inclusão Digital não se faz com Software Proprietário por uma série de razões (procurem a respeito, se não acharem textos digam que eu escrevo um outro artigo tratando disso).

O Serpro já se posicionou sobre a irregularidade que é o dual boot no Computador para Todos, mas infelizmente o Ministério da Ciência e Tecnologia disse que é regular porque a portaria não fala explicitamente de dual boot.

Mas eles estão infringindo explicitamente a Portaria ao colocar dual boot sim! Conforme apontado por Alexandre Oliva na lista PSL-Brasil, a Portaria restringe sim a Software Livre:

a) REQUISITOS MÍNIMOS PARA TODOS OS PROGRAMAS DE COMPUTADOR:
[...]
a.8) Software livre de código aberto com permissão de uso, estudo, alteração, e execução e distribuição;
a.9) Os aplicativos não poderão ser versões de demonstração e nem possuir restrições de funcionalidades, artificialmente implantadas.

Mais a respeito

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