As Pedras se Movem

1 ago 2004

A Microsoft não liga para o Linux. O Linux é uma pedra em seu sapato e, depois de tantos anos esmagando projetos concorrentes, ela aprendeu muito bem a lidar com pedras nos sapatos. É lógico que ela se preocupa com o Linux, pois a curto prazo tem crescido. Porém sua preocupação maior tem menos letras...

O modelo de desenvolvimento do Software Livre foi o que permitiu o fortalecimento do Linux e outros projetos. O OpenOffice e o Mozilla, o Apache que a faz acordar suada e ofegante no meio da noite. Ela não odeia o Linux. Se o Linux fosse um produto como o deles, ela saberia muito bem se livrar dessa pedra. Acontece que o Sistema Operacional não se chama só Linux e há três letras que ela gostaria que nunca houvessem existido: GNU.

A GPL pode ameaçar seus planos para o futuro e tem ameaçado de maneira enfática (apesar de tal ameaça poder ter passado despercebida por muitos). Isso a ameaça, mas essa empresa tem evoluído muito nesses anos em uma direção diferente das convencionais. Hoje eles têm uma forte inteligência. Inteligência de guerra, onde os fins justificam os meios: aprenderam a vencer a qualquer custo.

Eles acompanham bem os nossos movimentos, mesmo que não tenhamos notado. Eles viram o projeto Mozilla de um framework de aplicações não vingar (o navegador e o e-mail só agora começam a ser falados pela imprensa) e aproveitam para refazer esse framework a seu modo. Não duvidem: eles encontrarão erros do Mozilla XUL e o corrigirão para seu XAML, batendo forte nesses erros, que é onde vai doer.

Agora, por que a Microsoft faria questão de participar de evento de Software Livre? Não seria perigoso um palmeirense no meio de corinthianos (ou o contrário, tanto faz)? Seria se eles não tivessem uma inteligência de guerra. Vale lembrar que quando o termo "Open Source" se tornou popular, eles "abriram" o código de alguns programas para mostrar que estavam por dentro das mudanças no setor de informátia. Mas você conhece a licença que eles criaram para isso? Você pode ver o código, mas não alterar nem recompilar, além de estar sujeito a futuros processos caso chegue a criar códigos que lembrem o da tal empresa. Como você chamaria isso? Chamo de desinformação. São déspotas esclarecidos.

Voltando à questão: o que eles fariam em um evento de Software Livre? Pregariam o "software livre segundo o que entendem disso", que de livre nada tem. Assim, um evento onde os visitantes interessados deveriam receber informações confiáveis sobre o que é o movimento recebem informações distorcidas ou truncadas. Eles também podem utilizar de velhos tabus como o da segurança por obscuridade. Certamente não seria difícil a um visitante sem tanto conhecimento ser iludido por tais argumentos.

Além do mais, a presença da empresa em um evento de Software Livre passa a forte sensação de que eles têm tudo sob controle: melhora a imagem da empresa frente aos clientes tradicionais.

Uma das coisas mais incríveis do Software Livre é seu modo de "seleção natural", que geralmente permite que existam dois softwares fortes de cada área para competirem, além de outros menores. é assim com KDE e Gnome, Emacs e vi, Mozilla e Konqueror, Links e Lynx... Até mesmo em campos diferentes há essa benéfica ruptura de idéias: Open Source e Free Software, Perl e Python, múltiplas distribuições, GPL e BSD... O lado bom disso é que é algo perfeitamente saudável: há sempre uma concorrência à altura (ou quase) e as equipes se motivam em torno do que acham que vale a pena em disputas onde prevalece o espírito esportivo.

Partindo do princípio de que a comunidade tem uma tendência tão forte a se dividir em torno de opiniões, formando grupos de opiniões diferentes, é de se estranhar que muitos abominariam a participação da Microsoft em um evento de Software Livre enquanto outros seriam totalmente coniventes com isso, criticando os primeiros severamente? Olhando desse ângulo me parece que não. Assim, o que geralmente é uma vantagem entra em um ponto crítico onde pode se tornar uma fatal armadilha. Nós sabemos que as discussões e posicionamentos ideológicos têm muita importância e que, por falta de comunicação, alguns se exaltam e falam sem pensar, dos dois lados. Os velhos flames que se combate (e têm-se evitado) parece que podem voltar agora. Como fica a imagem da Comunidade de Software Livre Brasileira depois de uma ruptura dessas, onde uns fecham contratos de patrocínio da Microsoft para um evento enquanto e, em resposta, uns aplaudem e outros jogam tomates?

Não digo que se deva ser conivente com isso, ou abominar totalmente o ato. Só acho que foi uma jogada bem estudada e o que podemos tirar disso tudo é a certeza de que eles estão jogando. As peças já estão se movendo.

Sempre dissemos que nossa briga não é com a Microsoft, mas com o Software Proprietário. Pois bem, a deles não é com o Linux, mas com o Software Livre. Eles conseguem, participando de um evento de Software Livre e gerando tanta polêmica, assumir também a posição de arqui-rivais do movimento, o que sempre evitamos. As peças se movem no tabuleiro e quão mais cedo percebermos que o jogo já começou, maiores serão nossas chances de resposta.

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