Parte 1 - Melodia

22 mai 2005

Cidades perfeitas... É a coisa mais chata que alguém já pôde criar. Mas tudo bem... Tenho que mudar de vida, mesmo que seja chato.

Sou Mário Dantes e estou no Rio Grande do Norte, na cidade Melodia, que foi criada há uns seis anos. É pequena, mas querem torná-la uma cidade perfeita. Sabe? Aquelas onde tem toque de recolher, tudo é controlado e só vivem pessoas de bem. Estou aqui faz uma semana e já sei o que sinto em relação ao lugar: é um saco!

Mas, sabe? Tenho que mudar de vida! Esse lance farra toda hora não dá mais não. Por toda essa longa semana, às vezes pensei: "Será que eu tô embirutando?" Mas, quer saber? Eu tenho boas razões para querer mudar. Depois do sucesso de ''Sinas: Copos e Minas'', achei melhor investir sério nisso de escrever. Era o meu primeiro livro e foi esse sucesso todo! Infelizmente, todo sucesso é passageiro. O que vem, vai do mesmo jeito...

Pra esse livro novo que tô bolando, quero me isolar. Não vai ter nada a ver com bar e garotas. Tô pensando em falar dos cogumelos. Cê deve saber... Aqueles bixos que dizem que tão na floresta... Faz tempo que falam deles. Cogumelos que andam junto com tucanos, brigando com outros bixos estranhos.

Eles surgiram numa época interessante. O Josué, que é um amigo que tá na imprensa, disse uma vez que tem muita mentira no jornal. Disse que os computadores não haviam "sumido da face da Terra" e ainda eram usados por grandes empresas. Muita reportagem ele diz que é de coisas que não existem ou não acontecem. Os computadores é que fazem. Foi por essa época que escrevi aquela poesia que fala da Revolta.

Um tal Kleber foi o primeiro que trouxe informações completas, quando os jornais começaram a falar do assunto. Ele falou das experiências que teve. Disse que nunca havia pensado em falar disso, pois diriam que estava louco. Mas ele disse o que tinha visto e aquilo me surpreendeu bastante. Depois de algumas imagens, todo mundo que eu conheço diz que isso não existe, que é invenção. Mas eu acredito. Sabe por quê? Se os jornais vivem fazendo notícias falsas por que iam querer fazer algo tão absurdo? A verdade deve ser mais espantosa do que o que eles fazem.

Bem, onde foi que eu parei mesmo? Ah, isolamento. Preciso ficar sozinho. No mínimo, longe de bares. Antigamente eu ia pra festas da pesada. Era em casa alugada. Os ricaços alugavam casarões só pra darem dessas festas. Rolava sexo e drogas adoidado. Foi numa dessas que eu provei pela primeira vez o produto. A merda é tentar alcançar felicidade com aquilo, como muitos fazem.

Pra falar a verdade, nem sei o que é ser feliz. Só sei que aquilo é uma enganação e eu não conseguiria descobrir qual o sabor da felicidade estando lá. Por isso vim pra cá. Não é todo mundo que pode ir pra uma cidade perfeita: eles fazem um controle muito rigoroso pra não "contaminar" a cidade com essas coisas que tem por aí. Eu só vim por causa de um amigo. Ele falou com a direção da cidade... É, tem essa também... Em uma cidade perfeita não tem prefeito, tem direção. Sabe-se lá porque... Fora é difícil saber disso e eu só descobri quando cheguei.

Sabe? Nem sei do que tenho mais saudade. Se é da galera que eu sempre via ou da bebida. Não sei o que vou fazer da vida até o lançamento do segundo livro. Ainda tenho algum dinheiro e acho que dá pra algum tempo. Antes eu vivia de favor nas casas de uns amigos ricaços. Já trabalhei com móveis, fazendo, e fiz uma ou duas vinhetas pra comercial. Hoje tô parado, sem farra e sem trabalho. Não sei o que vou fazer aqui...

Faz só uma semana que tô aqui. Fui no supermercado apenas uma vez e descobri que não vendiam álcool nem cigarro. Imagine! Comprei logo um bom bocado de coisas, que eles trouxeram pra cá. Sabe? De moto não dá pra levar tanta coisa...

Ah, e eles têm uma emissora chamada TV Melodia. Toda casa tem televisão. Isso porque não são os moradores que encomendam a planta e mandam fazer a casa. A Direção é quem cuida de tudo. Qualquer probleminha e eles mandam alguém pra resolver. Claro que não são só os impostos que pagam à Direção: há uma taxa mensal, uma espécie de aluguel.

Está realmente muito chato: não tenho nenhuma idéia. Eu devia ter imaginado. Sem bebida, não dá! Não consigo pensar em nada! Há uma semana estou aqui e nem ao menos um verso se vê nesse caderno em branco! Não vai dar certo!!

Melhor eu me acalmar antes que faça alguma besteira. É o tédio, eu sei, mas tenho que manter a calma. Melhor eu ligar a televisão e ver o que está passando.

Filme, desenho, comercial... Hmm... Nada realmente interessante. ...ou útil. "Produtos Bonatello"... Que grande porcaria! Tem um monte de empresas agora. Ou melhor, não tem um monte de empresas. É que tem poucas empresas muito grandes e poderosas de um lado e um bocado de indústrias pequenas desafiando o poder das grandes. Algumas conseguem chegar lá, mas comparando com o número dos que falem no final das contas... Esquece, não tem chance.

Agora, como não sei que ilustre pessoa vai ler esse troço aqui... Na verdade nem sei se alguém vai ler... Vou falar um pouco do mundo que a gente vive hoje.

O presidente é um tal Pedro Afonso. Ele não faz muita coisa pelo povo. Como todos os políticos de hoje, só pensa em engordar a poupança dele e das empresas. Todo mundo sabe disso, mas as pessoas se tornaram assustadoramente tolerantes. O ano é 2016 e, como já se sabe, a Floresta Amazônica é patrimônio da humanidade e não pertence mais ao Brasil. Os Estados Unidos tão sofrendo de envelhecimento precoce. Há violência nas ruas e dizem que lá está entregue aos ratos. No mais, as coisas tão meio assim ou como aqui em quase todo canto do mundo. Mas eu disse aqui no Brasil, não em Melodia, pois ainda são poucas as cidades perfeitas fora do país.

Todo mundo já sabe hoje em dia que existem mesmo poderes psíquicos. Há também viagens espaciais de orçamentos milionários movidos pelos Estados Unidos e pela Rússia, como nos "velhos tempos". O Brasil também tem tecnologia para isso, mas sabe como é o governo...

Quanto às viagens que se concluem, já mostraram muitas imagens. Terrenos de outros planetas e até alguma forma de vida. Eles mostram tudo como verdade, mas nos dias de hoje, há quem duvide até das viagens, e não sem razão.

O que mais... Tem um monte de canais na TV. Estou passando pelo 235... Ah, eu disse que tinha um canal de Melodia, não disse? Bem, é o cana da Direção de Melodia... Tem mais alguns além dele que são de gente daqui, mas eu não sei quantos são. Sabe? Não me ligo muito nisso de TV...

Já são oito horas. Vou comer alguma coisa que às dez eles cortam a luz. É aquele lance de "toque de recolher"... Comida só tem enlatada. Quando morava com a vó, ela dizia que a comida natural era que era boa. Chamava de "comida caseira". Mas eu não tive muito papo com a vó não. Eu ia pra farra e deixava ela toda triste... E hoje até restaurante é com comida dessas, mas eles ganham dinheiro com o espaço alugando mesas.

Aqui tá um saco, sabe? Não sei mais o que faço pra passar o tempo. Antigamente eu achava que não tinha nada mais chato que esperar alguém, sem beber. Hoje eu sei que tem. É esperar sem beber e sem ninguém pra conversar. E esperar nada, ainda por cima. Espera, acho que ouvi alguma coisa, parece ter vindo da escola... É que a minha casa fica de frente pro Colégio Superior. Bem, o que sei é que lá não tem aula à noite, só de dia para os pivetes da cidade: tudo gente de grana. É melhor dar uma espiada. Onde botei a chave? Ah, aqui. Certo...

A rua está meio parada. As luzes dos postes acesas, mas ninguém por perto. O colégio está fechado como imaginei. E diziam que essas cidades eram ótimas pra a gente viver... Além de ser um saco, parece que tem ladrão também. Melhor voltar pra casa.

O telefone está cantando. ''- Alô!'' - "Oi, gato..." É a Patrícia. ''- Oi, Pat!'' - "Como vai? A Bella disse que cê tinha deixado a gente, ido parar numa cidade certinha..." ''- É, eu vim aqui para Melodia...'' - "Ei, me diz uma coisa: como é que é viver num canto desses? É que meu pai tava querendo, vale a pena mesmo?" ''- Bem, é meio...'' - "Chato! Sem graça! Acertei?" ''- É...'' - "Bom, mas eu liguei por outra razão. Eu sei que você tá querendo ficar longe de farra, de bebida, mas... É que meus pais saíram e a casa tá limpa. Eu tô com uma saudade de você... Que tal vir dar uma passada aqui: dois dias ou três e você volta... Que acha?"

Patrícia... Os pais dela são ricões e ela é daquelas que teêm pouco carinho e vai de festa em festa procurando companhia. A gente já esteve junto um monte de vezes... "Gato? Ainda está aí?!" ''- Estou, Pat...'' - "Olha, venha! Eu prometo que não chamo mais ninguém." Sei não... "Se quiser eu escondo as bebidas, quer? Venha! Você mesmo disse que estava chato aí... Vamos, só uns dias... Uns dias aqui, só nós dois, aí você volta pra sua cidadezinha chata. Que tal? Diz que vem! Vem?" ''- Está bom, eu vou...'' - "Valeu!" ''- Mas só uns dias.'' - "Certo! Ótimo! Estou esperando." ''- Tchau!'' - "Tchau. Um beijo." ''- Outro. Tchau.'' - "Tchau.

Ela é bonita. A gente já ficou junto tantas vezes e acho que uns dias fora não vão fazer mal ao tratamento. Além do mais, ficar com ela vai ser bem melhor que ficar sozinho aqui.

''A Bella falou...'' É, nunca mais falei com ela também. Será que ainda tá pendurada em droga? ... Mas é cada uma... Só pode ser coisa dessa cidade chata! Tô começando a ficar burro, por acaso? A Isabella foi a última mina com que falei antes de vir pra cá e, infelizmente, é claro que ela ainda deve estar atolada naquele vício idiota. É uma pena... Ela é uma mina tão legal... Esse vício é seu único defeito. Pena que seja um defeito tão grande... Mas eu não deixo de falar com ela por causa disso, não.

Bem, tenho uma hora até o toque de recolher. Acho que vou embora hoje mesmo. Arrumo minhas coisas, poucas. A chave... Ali! Pronto, agora é só pegar a moto e dar no pé.


Uma semana! Uma semana! Caramba! Pelo menos ela cumpriu o que prometeu e não chamou ninguém mais. Mas uma semana... Não esperava que fosse passar tanto tempo assim por lá.

Não que tenha sido ruim, mas fugiu um pouco aos meus planos. Por falar em fugir, foi engraçado lá no portão... "Por que você vai sair a essa hora? Vai pra onde?" Queriam a todo custo me convencer a voltar pra casa e viajar pela manhã. Onde já se viu... Fiz até o teste do bafômetro e só depois de meia hora que me deixaram ir. Bem engraçado isso de cidade perfeita.

O que é isso? Estiveram aqui? Eu não deixei a cadeira naquele canto... Mas o que houve? Um bilhete... Deixaram um bilhete escrito a mão. "Você só está por favor. Não brinque de novo." E essa agora... Por que será que vieram aqui? Porque saí ou pela confusão lá na saída? Sei lá, talvez pelos dois... De qualquer modo eu não pretendo sair de novo tão cedo... Mas quando for sair de novo vou ter que me lembrar disso: não sair de noite. Já pensou se eles me expulsam da cidade? Todos os meus planos para o tratamento por água abaixo...

Olha, o colégio tá aberto. Acho que vou lá ver se eles querem uma vinheta. É um saco ficar sem fazer nada e, conversando um pouco com a Patrícia, cheguei à conclusão de que tenho que fazer alguma coisa. Eu falei dessa escola e ela sugeriu que eu oferecesse uma vinheta. Gostei da idéia, afinal, eu fazia algumas pras indústrias que tinha lá perto de casa. Se não conseguir trabalho com vinheta, vai ficar mais difícil... Eu poderia fazer móveis, mas acho que não ia dar muito certo: tudo o que eu vi é fornecido pela Direção de Melodia! Só se eu fechar acordo com a Direção, mas acho muito difícil... Bem, vou lá.

O guarda. Tem uma faixa de pedestre bem em frente à minha casa, e à escola, claro. O movimento não está tão intenso, mas há carros indo e vindo. O guarda parece feliz também, trabalhando em um lugar assim... Deve ser legal ficar ajudando a atravessar a rua com segurança. E ver as crianças caminhando seguras, indo para suas casas. É uma visão não muito comum, só pode ver quem vive em uma cidade perfeita.

Esse tal Colégio Superior tem um aspecto de prédio antigo, mas não deve ter sido feito há mais de cinco anos. Todo branco com detalhes em azul, tem dois andares e parece bastante amplo. Na verdade, é a primeira vez que vou lá. Parece que o balcão é ali...

- Olá, com licença...

- Pois não, senhor.

- Bem, vocês têm um Departamento de Marketing ou isso é com o diretor?

- Como assim?

- Eu trabalho com marketing e queria oferecer meus serviços

- Um momento, por favor.

Pronto, agora vai ligar pra o chefe pra perguntar o que é marketing...

Aqui dentro é, bem, tem uma escada aqui, em frente à secretaria, em frente ao caminho da rua, passando por aqui onde eu tô tem um pátio... Não parece ter ginásio por aqui, é uma pena... Puxa, como ela tá demorando! A secretaria tem três birôs, uns arquivos lá no fundo, uma máquina de escrever e duas mulheres trabalhando. Uma delas, aparentando mais de quarenta anos, está escrevendo àquela máquina que já falei. A outra, de óculos, cabelo amarrado e um pouco gordinha, está no birô mais pro fundo da sala, falando ao telefone: é a que me atendeu.

Está demorando muito. Já são quase onze horas. Daqui a pouco algumas turmas começam a sair e o colégio vai se preparar pra o almoço. Olha, vem alguém descendo a escada. Será que é professor? Alto, com postura absurdamente correta e cara de poucos amigos... Deve ser o responsável pela disciplina...

- Regina, você viu o Guilherme por aqui? - só depois de falar pra secretaria é que ele nota que há alguém fora dela, no caso, eu. - Oi, bom dia. Viu, Regina?

Um cumprimento rápido e já volta a tratar de seus interesses. A Regina é a da máquina. Ela vira a cabeça e faz sinal negativo bem lento e com cara de quem não gosta de ser incomodado. Depois completa.

- Pergunte ao Valter! E aproveite e diga a ele que é pra ficar aqui na frente, cuidando da entrada.

Sem responder, o diciplinador simplesmente sai em direção ao pátio. A senhora da máquina faz outro sinal negativo com a cabeça, dessa vez de reprovação.

- Me revolta uma coisa dessas... Tem gente que se encarrega de educar e não sabe um pingo... Ou Marileide! Já atendeu o rapaz?

- Ah, é! Desculpa! Eu falei com o Ruy e ele disse que vem já.

- Ruy...

- O diretor.

- Certo, obrigado.

A outra já tinha se esquecido e eu nem percebi que ela já tinha acabado de falar ao telefone. Ainda bem que aquela senhora lembrou.

É incrível: nem na época que eu estudava eu pude ver uma escola tão "clássica". Gente que não cumpre totalmente as atribuições. As duas estão conversando agora. Coisas de novela. Isso também acho que é difícil. Não sou muito ligado em TV, mas deve ter um monte de canais com novela por aí e falar sobre isso só pra quem trabalha no mesmo canto e combina assistir uma específica. Se não for assim, acho que deve ser difícil elas poderem dar suas opiniões, o que é o atrativo das novelas.

Está vindo alguém. Deve ser o diretor, pelo terno, mas parece muito novo pra ser diretor.

- Bom dia. O senhor queria falar comigo?

- O senhor é o diretor?

- Certamente, mas vamos à minha sala.

Agora, pensando bem, parece um diretor sim. Mesmo parecendo não ter idade, ele fala como gente velha. Não é só pelas palavras, nem é só "gente velha". Ele fala como alguém que conhece esse lance de oratória, como um cara sabedor da língua, sabe?

A gente foi até a sala do figura, que não ficava muito longe dali. A sala era espaçosa, com um birô daquele de escritório, uma cadeira giratória com braços do diretor, duas cadeiras simples na frente do birô... Bem, eu digo simples, mas era daquele tipo de cadeira de escritório também, só que sem braços. O que tem mais de interessante... Um aquário com uns peixinhos coloridos, um quadro com o escudo da escola, que parece um escudo de time... Tem um mapa-mundi. Daqueles comuns que parecem uma minhoca, sobe e desce e sobe... O mapa ondulado. Nós entramos e ele se dirigiu ao seu lugar. Pediu para que eu me acomodasse, em seguida, e eu escolhi um das duas cadeiras de que falei, na frente do birô.

- Qual o seu nome, por favor?

- É Mário, senhor. Mário Dantes.

- Pois bem, senhor Dantes. O meu é Ruy. Prazer conhecê-lo.

- Igualmente.

- O que o traz à minha escola?

- Bem, senhor diretor, eu sou novo aqui na cidade e vim oferecer meus serviços. Eu trabalho na criação de vinhetas, slogans e roteiros para comerciais. - Nessas horas dá uma vontade de responder "os meus pés"...

- Olha, senhor Dantes, talvez por ser novo na cidade o senhor não tenha percebido que não há outra escola por aqui. A questão é simples: todos conhecem o Colégio Superior.

- Entendo, senhor, mas acontece que hoje em dia temos que colocar comerciais também para passar uma certa sensação de conforto aos pais, para que não se preocupem com a escola mais, tendo certeza de que seu filho está matriculado na escola certa.

- Interessante o seu ponto de vista. Realmente interessante. O que acontece, senhor Dantes, é que, além de se tratar de um gasto adicional que considero perfeitamente dispensável, acredito que propaganda em massa poderia incitar os que pretendem ser nossos concorrentes. Entenda, não quero dizer que não queira, de modo algum, fazer esse trabalho com você. O que acontece é que considero esta época inapropriada para isso, o senhor me entende?

- Sim, senhor, entendo. Apesar de não concordar com isso.

- Por quê? Acha que não há ninguém na cidade querendo abrir uma escola para competir com a nossa?

- Não, não é isso... Certamente há esses interesses, mas acredito que seria muito bom o Colégio Superior aproveitar ter saído na frente, fazendo propagandas, mas não só para TVs locais. Sabe, eu vim de uma cidade normal e cheguei há pouco tempo, sei bem como é. Muita gente importante quer ir a uma cidade perfeita, mas não sabe se há uma forma de ganhar dinheiro e, principalmente, se haverá uma boa educação para os filhos. Que as cidades perfeitas oferecem segurança e conforto todos sabem, a dúvida é se elas são realmente "perfeitas". Fazendo propaganda em larga escala, as pessoas que já receberam convite e têm como vir, mas que têm essas dúvidas, viriam pra cá e seus filhos se matriculariam.

- É... Devo admitir que você tem visão... O problema é que "propaganda em larga escala" está fora do nosso alcance financeiro.

- Por que não procura a Direção? Eles devem ter interesse nisso e há boas chances de eles partilharem os gastos.

- Viriam mais pessoas para cá...

- Não só isso! Quem estiver procurando uma cidade perfeita para ficar terá mais chance de escolher Melodia. De um jeito ou de outro, a cidade cresce, com ela, a renda da direção e do Colégio.

O diretor pára e começa a pensar. "Eu sei bem como é isso..." Que grande mentira, que eu não vim da alta sociedade coisa nenhuma, mas acho que deu pra convencer.

- Senhor Dantes, sua sugestão é interessante. Parece perfeitamente possível isso! Façamos o seguinte, então. Eu fico de contactar a Direção de Melodia para discutir o assunto. Caso se resolva, eu entro em contato com o senhor, certo?

- Tudo bem...

- O senhor passe na secretaria e deixe o telefone e endereço. Foi um prazer conhecê-lo.

- Igualmente.

- Até um futuro reencontro e, se tudo der certo, um contrato de serviço.

- Até.

Depois de um aperto de mãos, eu passo pela porta e saio da sala. É, espero que tudo dê certo. A secretaria está ali. Está aberta ainda e as duas estão no mesmo canto que estavam quando cheguei.

- Oi.

- Oi, o Ruy acabou de ligar praqui. - Era a gordinha. Ela se levanta do birô e vem até o balcão. - Qual o nome do senhor?

- Mário Dantes.

- Telefone?

- 1476-2812.

- Endereço?

- Aqui na frente.

- E qual o número?

- 53.

- Certo. Pronto, obrigada.

Mal passava pelo portão principal do colégio quando a sirene tocou. parecia um despertador ligado em caixas amplificadas. Ao atravessar a rua, alcanço a casa, do outro lado. Não tem tanto movimento de carro mas espere pra ver daqui a quinze minutos.

Em casa de novo, hora do enlatado. Ainda tem alguns na dispensa e eu não vou precisar comprar disso essa semana. Vou aproveitar e pedir de outros sabores, que esse de carne de avestruz já está enjoando. Uma lata na geladeira... Vou ter que comprar mais refrigerantes. Na sala, a TV... Vou deixar nesse filme mesmo.

Um cara alto de terno conversando com mais cinco, só que os outros têm terno preto enquanto o tal cara alto tem terno cinza. Estão num salão com caixotes. Parece que pegaram alguma coisa que ele quer de volta. Deve ser um envelope com informações confidenciais. O quê?! Pularam, quebrando o vidro vindo do lado de fora do lugar lá. É um só e já caiu atirando, mas o bicho é ruim e não acertou ninguém. Parece que é amigo do de terno cinza. Agora é tiro pra lá e tiro pra cá. Interessante, mas não empolga muito não...

Bem, já acabei de almoçar e isso aqui já me encheu. Acho que vou dar uma volta por aí... Não parece ter nada melhor pra fazer mesmo...

Sabe de uma coisa? Já fiquei tempo demais nessa porcaria de casa. Vou sair um pouco e ver as ruas, conhecer a cidade. O dia está ensolarado e a cidade, habitada. Mais que isso, desperta!

Fecho a porta... Vou pra direita, que deve ser mais pro centro de Melodia. As ruas estão razoavelmente movimentadas. Há pessoas nas calçadas com suas roupas em jeans e panos com mais algodão. Há carros coloridos com seus desenhos ovalados, mas há uns poucos com retas também. Essa região aqui não tem muitas lojas, mas já passei por uma farmácia e dá pra ver o supermercado mais à frente.

Eu poderia aproveitar e fazer algumas compras, mas é melhor não. Como não tenho muito o que fazer em casa, ir fazer compras é uma boa desculpa pra eu sair outra hora. Além do que eles entregam em casa: é só puxar um fio pra eles lá...

Espere um pouco... Eu conheço esse sujeito?! Camisa preta, calças pretas, chapéu preto e óculos escuros. Cavanhaque, é mais alto que eu "alguma coisa", parece albino... Eu acho que conheço esse cara de algum lugar... Bom, ele já passou do supermercado e virou a esquina, de qualquer jeito... Eu não lembro nada, mas acho que já vi esse cara antes...

Ah, deixa pra lá e vamos em frente. Está começando a passar gente levando criança pra escola. É realmente agradável ver esses pirralhinhos felizes sendo trazidos por babás, eu acho. Em segurança, sem medo de ter um assalto de uma hora pra outra.

O dia está bom e o Sol está quente. Nada que a gente não possa suportar, com o tempo. Ali na frente não tem muro, acho que há uma praça lá. Dito e feito: uma praça. Há um banco daquele lado, do outro um teatro, sabe? Coisas que não costumam funcionar ao mesmo tempo... A praça é bonita, com muitas árvores e grama e uns bancos. Epa... Acho que acabo de fazer uma pequena confusão. Banco pra lá, banco pra cá... O primeiro banco que falei era um banco de guardar dinheiro, um prédio, certo? Bancos de praça, onde a gente pode sentar, tem alguns, não é um só não.

Bem, vou me sentar ali naquele banco tipo 2. O banco onde estou fica bem de frente para uma estrada curva. Parece estrada do Mágico de Oz, que minha vó contava e mostrava no livro. E eu falo como se fosse sempre isso... Na verdade, a vó só me contou a história do Mágico de Oz e mais duas outras. Uma era o João e o Pé de Feijão e a outra eu já esqueci, que isso faz um tempo...

O banco é verde escuro, de ferro. Não está muito quente porque está embaixo de uma árvore, mas deixa a árvore pra lá! Olha só que gata que vem vindo ali! Cabelos negros e longos, olhos negros, pele clara, corpo Uau! Não dá pra ver muito o corpo através da sua roupa vermelha, mas pelo que posso ver... "Oi, gracinha!" Hmm... Ela sorriu! Aquele sorrisinho envergonhado, mas...

Ela está indo praquele lado ali. Tem uma farmácia lá. Nem tinha visto, mas é pra lá que ela tá indo. Ah, vou lá também! Bom, ela entrou. Falou com o vendedor, que foi lá dentro olhar se tem o que ela pediu.

- Oi, gata. Você vem sempre aqui?

Que sorriso lindo ela deu em resposta...

- Essa foi...

- Impecável?

- Não, ridícula!

- Ah, não tenho culpa! A culpa é sua. Sua beleza bagunça a cuca de qualquer um!

- Tá aqui, senhorita.

O vendedor vem estragar a cena...

- Obrigada. Quanto a você, outro dia a gente se vê. Tchau!

- Tchau!

- Volte sempre!

O cara estragou tudo mesmo, não? Ah, mas ela deu alguma esperança, se bem que eu esperava mais. É, coisas de uma cidade perfeita. Melhor eu ir me acostumando...

- Ela é linda, não é?

- É sim, mas... Me diz uma coisa. Você é novo aqui, não?

- Sou. Quer dizer, mais ou menos.

- Então está explicado.

- Como assim?

- Você é louco de dar uma cantada nela?

- Por quê?

- Meu amigo, ela é filha do Tonny!

- Tonny!?

- Tonny Wornley, um dos diretores da cidade. Se eu fosse você, tomaria mais cuidado.

- Ih... Mas... Isso é muito grave?

- Ele tem ciúme da Yolanda que você nem imagina. Ele pensa que ela ainda é uma menininha e ela não parece fazer questão de não parecer assim. Se ele souber que você tá dando em cima dela, a coisa pode ficar feia pro seu lado. A menos que você seja muito amigo de um dos outros diretores...

- É, parece bem grave. Mas acho que já está na hora de ele descobrir que a Yolanda não é mais criança. De qualquer forma, valeu o alerta.

- Falou.

- É a sirene, isso?

- É a polícia...

Ele sai de trás do balcão e a gente vai pra calçada da farmácia ver o que está acontecendo. A farmácia fica numa esquina, mas olha ali! Todo mundo está olhando: a viatura vem vindo veloz. Passa pela farmácia, pela praça e segue em direção ao baixo York. Seguindo por essa rua, que é a mesma onde eu moro, passando pelo colégio. Não dá pra ver, talvez seja no colégio mesmo.

- Ei, amigo. - o farmacêutico pára um velho que tava passando. - O senhor sabe o que houve?

- Não, filho. Só vi uma moto preta daquela de filme passando bem rapido, depois veio a polícia.

- Está bem, obrigado.

- Não há de quê.

- Uma moto preta... - Interessante, e completo - De filme...

- Deve estar se referindo àquele modelo Zatron 2328. Do comercial "só falta falar".

Como eu dava a entender que não havia entendido, ele conpleta:

- Não sabe? Apareceu em uns filmes também. Acho que "Explosões sem Limite" tinha uma... E a do Tonny Geleck em "Jornada ao Cruzador Diamante III". Lembra?

- Eu... Bem, não assisto muito a TV...

- Ah, não acredito. Você não viu o jogo, ontem, do Náutico, viu? Viu o lançamento da Teseu XVIII? Viu...

- Não! Eu não vi nada disso, tá bom?

- Cara, você não sabe o que perdeu...

- Sei sim. Obrigado e vou indo. É bom você ficar de olho na farmácia, se chega alguém...

- Tá, falou! Até outro dia!

É, tem gente que não sabe conversar sobre outra coisa... E como tem! Em outra ocasião talvez eu ficasse retido conversando com o farmacêutico por longos minutos, mas hoje em dia... Aprendi que esse tipo de gente não tem remédio.

Ficou legal, não? Acho que ainda falo desse "farmacêutico que não tem remédio" numa poesia...

De qualquer forma, vou pra casa. E essa Yolanda? Será que gostou de mim? Eu não sei não, mas... Ainda está cedo. Só de lembrar o que me espera lá em casa, aquela monotonia enorme, dá vontade de ficar passeando o dia todo. Acho que vou caminhar um pouco mais, talvez visite o Tecno. O que é isso? É o bairro mais "tecnológico" daqui. Não tem nada de muito tecnológico lá, mas ouvi dizer que tem um shopping, que tem grandes chances de ser o "único" de Melodia.

Sabe quem eu lembrei agora? A Isabella. Era legal ficar conversando com ela. É uma garota cheia de problemas, sabe? Uma "mina das sombras", o que quer dizer que usa muita droga. Uma garota de boa altura, ruiva, com carinha de criança e curvas bem-desenhadas. É bonita, sim, mas não tem nada entre a gente: somos só amigos. Ou melhor, já saímos juntos, sim, mas foi lá no começo. Conheço a mina há uns cinco ou seis anos.

Foi mais ou menos na época que eu resolvi "experimentar". Parece que ela começou por aqueles dias. Na época não entendeu porque eu não queria ir muito longe com aquilo. Sabe como é... No mundo das drogas, ninguém fala dos perigos. A gente só descobre quando é tarde demais.

Nos dias de depressão, ela costumava dizer que eu tinha muita sorte. Tinha percebido logo. E não era só isso. No mundo das sombras, ela conheceu tudo que é tipo de gente. Tinha uns que tinham desistido depois do primeiro uso, mas a droga os tinha escolhido. Eles não tinham como se livrar das drogas.

A única vez que vi a Bella bem, sem usar drogas, foi uma semana dessas, quando a gente conheceu o Catarino. Ela tinha uma queda por ele mas, como não podia ser diferente, ele foi embora. Nosso amigo era um eterno viajante e foi só ele partir para o vício da Bella atacar de novo.

Bom, já posso ver o shopping daqui. Esse bairro tem um bocadinho de lojas mesmo, em desenho dos anos oitenta ou noventa, com prédios exoticamente retos e curvos.

O shopping é grande. Quer dizer, já vi maiores que este, mas não me lembro de ter visto um que ocupasse uma área tão grande, se o shopping é isso tudo que estou vendo. É que o comum é que os prédios sejam grandes em altura, tendo vários andares, e os shoppings seguem essa regra, nos casos normais. Acontece que, como nesta cidade perfeita os prédios parecem não poder serem feitos muito altos, esse teve que ter espaço maior.

Olha só! A delegacia fica aqui na Tecno! E por falar em Tecno... Este bairro só tem esse nome porque foi feito há poucos anos, senão ninguém teria querido saber de Melodia. Ouvi dizer, também, que tem alguns bairros que estão em construção apesar de estarem quase prontos.

Interessante é que nem toda cidade perfeita é assim. Tem uma tal de Alfa Ville Land, que é baseada na idéia de um conjunto habitacional e shoppings convencionais. Nela não tem prédios com menos de sete andares. Tem também uma Yemanjá na Bahia, toda baseada na estrutura do Pelorinho. Tem uma com praia no sul do litoral pernambucano... Ou seja, são vários tipos diferentes de cidades que buscam ser perfeitas. O que elas têm em comum é que não é qualquer um que pode entrar nelas - e eu sou um cara privilegiado -, elas têm um bom policiamento e regras rígidas a serem seguidas pela população, como o "toque de recolher" e a proibição de bebidas alcoólicas. Ninguém pode construir nada também, tudo pertence à cidade e só eles podem reformar prédios, ou mesmo pintá-los.

De qualquer forma, isso não importa. Estou em Melodia. Esta é a cidade onde moro, e graças a um favor. Estou chegando agora na entrada do shopping, que é verde e cinza, da linha JOAH de shoppings, que têm sede em Fortaleza, eu acho.

O lugar parece bastante amplo. Tem lojas de roupas e de coisas domésticas, mas não parece ter muita gente. Balcões no meio do corredor vendendo revistas, tabacos, jóias... Parece que as diferenças entre este shopping e os outros começam e terminam no tamanho da área e altura. Sabe? Acho que vou indo. Afinal, se consumismo nunca foi meu forte, não é agora que vou querer me tornar comprador compulsivo. Mesmo porque o dinheiro já está quase acabando. Vou lá então.

Vou voltar por outros caminhos pra ver se conheço melhor a cidade. Quem vive nas ruas termina criando um sentido especial para não se perder. Não há razão para ter medo de se perder. Quem me ensinou isso foi um viajante, o Catarino. A gente se conheceu meio ao acaso. Espera! Olhe só! Uma movelaria! Será que não precisam de alguém? Não custa nada tentar, não é?

Movelaria Santo André, bem, vamos nessa então. Está aberta, é razoavelmente espaçosa. Não parece ter ninguém pra atender. Espera um pouco que tem um homem ali num birô, riscando um papel.

- Boa tarde! Com licença.

- Oi.

Ele está é jogando palavras cruzadas. Muito pouco profissional. De qualquer forma, tenho que falar.

- Oi... Você... Tem uma boa loja.

Ele não responde, ao invés disso me encara com curiosidade.

- Bom... Esses móveis... Como é que você os consegue?

- É fiscal?

- Não, eu...

- Então não é da sua conta! Quer alguma coisa ou não?

- Bom, desculpa se pareci agressivo. É que eu trabalho com carpintaria e estou procurando um emprego.

- Carpintaria...

- É.

- Tem alguma referência?

- Não. ...Mas morar aqui já não é uma referência importante?

- Talvez sim. Toma esse papel e anote seu nome e telefone. Vamos ver o que posso fazer.

- Tá! Obrigado!

- Não tem de quê.

Saindo então. Que cara de poucos amigos! Certamente vai amassar o papel e jogar fora assim que eu desaparecer da frente da loja. Fazer o quê? O jeito é ir embora, com poucas esperanças mesmo.

A cidade é limpa, não é como aquelas que eu conheci. Tem lixeiro em tudo que é canto, e é bonita. Mais viva. Talvez seja por ser dia. Eu conhecia mais o mundo da noite que o mundo debaixo do Sol antes de vir morar aqui.

De um jeito ou de outro, vou pra casa. As lojas acabam aqui. Estou entrando na área mista, que tem residências e algumas lojas.

Agora, lá está a minha casa!

- Boa tarde!

- Boa tarde! - É o guarda de trânsito da escola. Está alegre hoje. - Vida boa, não?

- É! Cansativo pra caramba, mas não tem trabalho que recompense mais.

- É... Ajudar os anjinhos a atravessar a rua...

- É muito pra pessoa, saber que é quase como um herói. Que com um apito posso parar o trânsito.

- É, imagino... Quisera eu ter um emprego tão bom...

- Tá desempregado?

- Infelizmente tô sim...

- Mas não se preocupe que isso vai mudar com o turismo!

- Como assim?

- Não tá sabendo que a direção vai investir um bocado em turismo? Vai ter uma equipe de policiais, guias, vendedores e um bocado de outros trabalhadores. Procure saber, que deve ter um lugar pra você.

- Interessante... Vou me informar sobre isso.

- Ôpa! O dever me chama!

- Tá. Obrigado!

A chave... Legal esse guarda, não? Queria ter essa disposição toda e esse entusiasmo pra trabalhar... Ou melhor, queria "trabalhar" primeiro.

Vou lá na cozinha tomar um refrigerante e depois descanço um pouco. Vou ver se ainda hoje vou procurar saber sobre isso de turismo. Deve haver...

- Não se mexa...

Epa! Que é que tá havendo? Um cara com uma arma? Na minha frente! Que merda é essa?! Não é uma cidade perfeita? Droga!

- Atende isso logo.

O telefone. Está chamando. Tenho que atender!

- Aja bem normal e com calma...

- Alô.

"Mário?" ''Oi, Bella!'' "Como vai?" ''Pode ligar mais tarde? É que ...'' "É importante." ''Tá bom, fala.'' "O Catarino! Ele esteve aqui te procurando. Disse que ia até aí." ''Mas ele...'' "Se encontrar com ele, diga que eu o amo muito, certo? Até outra hora. Ligo depois."

Desligou! Certo, calma Mário... Colocando o telefone no gancho... O que ele pensa que está fazendo? Sentou no sofá e continua apontando a arma pra mim... Olha pro relógio e gesticula que é pra eu ficar sentado também, no outro sofá, bem na frente dele! Alguém pode me dizer que droga está acontecendo!?

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